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São Paulo

Tio de alvo dos EUA sacou economias para cobrir despesa de esquema

Parente de Victor Shimada esqueceu US$ 7,7 mil e ofereceu R$ 13 mil do próprio bolso para cobrir despesa de esquema bilionário, segundo a PF

07/07/2026 02:10
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Arte Metrópoles/Lara Abreu
Amauri Henrique de Oliveira (de camiseta branca, à frente), tio de Victor Shimada (ao fundo, à esq) integram esquema de lavagem de dinheiro bilionário, segundo a PF - Metrópoles

Apontado como colaborador em um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, Amauri Henrique de Oliveira chegou a usar US$ 7,7 mil (R$ 39.809) de suas economias, reservados para um tratamento dentário, para cobrir um pagamento durante uma viagem de negócios. Amauri é tio materno do empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, alvo da Operação Exchange da Polícia Federal (PF) e um dos dois brasileiros sancionados pelo Departamento do Tesouro dos EUA.

O dinheiro pessoal, segundo as investigações da PF, foi usado para complementar uma entrega combinada pelo sobrinho. Na ocasião, Amauri transportava reais e dólares a mando de Shimada, mas percebeu, durante um dos deslocamentos, que havia deixado para trás parte do valor que deveria repassar ao destinatário.

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Dinheiro apreendido na Operação Exchange, da PF
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Operação da PF deflagrada na manhã desta sexta (3/7) contra suspeitos de elo com o PCC encontra saco de dinheiro na residência de um dos alvos
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Rovena Rosa/Agência Brasil
Dinheiro apreendido na Operação Exchange, da PF
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Dinheiro apreendido na Operação Exchange, da PF

Polícia Federal/ Divulgação
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Operação da PF deflagrada na manhã desta sexta (3/7) contra suspeitos de elo com o PCC encontra saco de dinheiro na residência de um dos alvos
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Operação da PF deflagrada na manhã desta sexta (3/7) contra suspeitos de elo com o PCC encontra saco de dinheiro na residência de um dos alvos

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Reprodução/PF

Para evitar que a entrega fosse comprometida, Amauri passou a madrugada procurando caixas eletrônicos e casas lotéricas. Em uma mensagem enviada a Shimada, afirmou que poderia utilizar cerca de R$ 13 mil próprios. Parte dessa quantia, explicou, estava sendo economizada para “arrumar os dentes”.

O episódio consta na decisão da Justiça Federal que autorizou as prisões e buscas da Operação Exchange, deflagrada pela PF na sexta-feira (3/7).

Viagem com reais e dólares

As conversas analisadas pela PF indicam que a viagem ocorreu em 12 de maio de 2024. Na ocasião, Shimada teria ordenado ao tio que entregasse “tudo com todos os dólares” e abastecesse o veículo antes de seguir viagem.

Amauri respondeu que estava com R$ 23 mil e US$ 10 mil. Ele também encaminhou uma imagem do aplicativo de navegação que indicava um percurso de 340 quilômetros e atualizou o sobrinho durante o deslocamento em direção a Curitiba (PR) e, posteriormente, Florianópolis (SC).

Em determinado momento, porém, o tio de Shimada percebeu que não havia levado outros US$ 7,7 mil que também faziam parte da entrega.

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Sem o valor completo, Amauri teria passado a buscar locais onde pudesse sacar dinheiro ao longo do trajeto. Ele informou ao sobrinho que possuía cerca de R$ 9 mil, além de aproximadamente R$ 4 mil que vinha guardando para o tratamento dentário.

“Tenho 9 k mais uns 4 k aqui, estava ajuntando [para] arrumar os dentes”, escreveu, de acordo com a transcrição reproduzida no documento obtido pelo Metrópoles. Shimada teria se comprometido a devolver o dinheiro usado pelo tio.

Dinheiro próprio para cobrir a diferença

A decisão não afirma que os R$ 13 mil substituiriam integralmente os US$ 7,7 mil esquecidos. As mensagens mostram que Amauri ofereceu os recursos próprios como parte da solução para cobrir a diferença e concluir a operação.

Shimada chegou a perguntar se o dinheiro estava depositado em uma conta ou se permanecia “vivo” com o tio. Segundo a interpretação da PF, “vivo” era o termo usado nas conversas para se referir a dinheiro em espécie.

Após realizar a entrega, Amauri enviou a mensagem: “Feitooooo”. Em seguida, encaminhou a fotografia de uma cédula de R$ 2 com uma anotação manuscrita que indicaria a data e os valores entregues.

Para os investigadores, a nota funcionava como uma espécie de recibo informal, utilizado para confirmar o repasse sem produzir comprovantes bancários ou documentos comerciais rastreáveis.

Tio materno e operador logístico

Amauri é irmão da mãe de Shimada e, portanto, tio materno do empresário. A PF afirma que ele não desempenhava uma função ocasional ou limitada a uma única viagem.

O investigado teria sido responsável por receber, contar, guardar e transportar dinheiro vivo a pedido do sobrinho. Em outra conversa, ele comunicou que havia recebido R$ 331 mil, mas que faltavam R$ 19 mil em relação ao valor combinado.

Segundo a decisão, o fato de Amauri se dispor a empregar recursos próprios, inclusive as economias reservadas ao tratamento dentário, demonstra seu comprometimento com a conclusão das operações atribuídas ao grupo.

Operação Exchange

A Operação Exchange investiga uma organização suspeita de lavar dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas. Segundo a PF, o grupo movimentava recursos por meio de operações bancárias de alto valor, criptoativos, repasses entre empresas e transporte de grandes quantias em espécie.

A Justiça Federal autorizou o bloqueio e o sequestro de até R$ 10,4 bilhões em bens, valores e criptoativos dos investigados e das empresas relacionadas ao caso, representando parte das movimentações financeiras analisadas.

Shimada, considerado o principal alvo da ação, não foi localizado durante o cumprimento dos mandados e permanecia foragido até a publicação desta reportagem. Ele foi sancionado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos na quarta-feira (1º/7), dois dias antes da operação brasileira.

Alvo dos EUA

Fontes da PF afirmaram ao Metrópoles que a divulgação antecipada da fotografia e do nome de Shimada prejudicou a estratégia montada para localizá-lo. Os mandados já haviam sido autorizados, mas ainda não tinham sido cumpridos porque os investigadores tentavam descobrir o paradeiro exato do empresário.

O governo norte-americano atribui a Shimada atuação como elo financeiro de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). No Brasil, entretanto, o promotor Lincoln Gakiya, principal investigador da facção no Ministério Público de São Paulo (MPSP), afirmou que o órgão não possui informações que relacionem o empresário ou Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira ao PCC. Ela foi presa, durante a operação dessa sexta-feira, apontada como colaboradora do esquema.

Segundo Gakiya, eventuais provas reunidas pelas autoridades norte-americanas sobre essa suposta ligação ainda não haviam sido compartilhadas com o MPSP.

A defesa de Shimada afirmou que ainda não teve acesso integral às decisões e aos elementos da Operação Exchange. Em manifestação anterior, o empresário negou envolvimento com organização criminosa ou com a prática de lavagem de dinheiro.

As defesas de Amauri Henrique de Oliveira e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira não foram localizadas. O espaço segue aberto para manifestação.