Ex-número 3 da Fazenda de Tarcísio teria discutido como “lavar” dinheiro
Ex-dirigente da Fazenda paulista, André Weiss foi preso temporariamente na última quinta-feira (3/9) durante operação do Ministério Público

A investigação sobre o esquema de corrupção envolvendo ressarcimentos de ICMS-ST aponta que André Weiss, ex-número três da Fazenda de São Paulo, teria usado pessoas próximas e empresas ligadas à família para movimentar e esconder parte do dinheiro que, segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), recebeu como propina.
O ex-dirigente é apontado como um dos integrantes da estrutura que teria facilitado ressarcimentos irregulares de ICMS-ST. Segundo a investigação, ele teria recebido cerca de R$ 4,5 milhões em dinheiro vivo. Com a apuração sobre o patrimônio, os investigadores passaram a analisar não apenas quanto dinheiro teria sido recebido, mas também por onde esses valores circularam.
Um dos caminhos identificados passa pelo cunhado de André Weiss. Embora declarasse renda mensal de R$ 18,1 mil, ele movimentou R$ 12,2 milhões em uma única conta no Itaú entre março de 2025 e fevereiro de 2026.
Descontadas as transferências entre contas do próprio cunhado, cerca de R$ 3,6 milhões vieram de fontes externas. Desse total, R$ 1,96 milhão entrou por meio de 334 depósitos em dinheiro vivo. A movimentação foi comunicada pelo próprio banco, que apontou que a forma fragmentada dos depósitos poderia dificultar o rastreamento dos recursos.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPEntre as transações analisadas, está uma transferência de R$ 200 mil feita por Weiss diretamente para a conta do cunhado. A investigação também identificou a circulação de valores por empresas ligadas a ele.
Entenda o caso
- André Weiss foi preso temporariamente nessa quinta-feira (3/9) durante a Operação Caldarium, do MPSP, que investiga um esquema de corrupção envolvendo servidores da Secretaria da Fazenda de São Paulo.
- O esquema envolvia ressarcimentos de ICMS-ST, um mecanismo legítimo pelo qual empresas podem receber de volta valores pagos antecipadamente. A suspeita é de que alguns pedidos fossem aprovados com valores indevidos ou sem a análise técnica necessária, mediante pagamento de propina.
- A estrutura investigada funcionava dentro e fora da Fazenda. Do lado de fora, o advogado João André Buttini de Moraes intermediava pedidos de ressarcimento e cobrava das empresas o resultado. Dentro da secretaria, fiscais analisavam e aprovavam os processos.
- Paulo Prado faria a ligação entre os fiscais e o restante do grupo, segundo a investigação. Ele também teria repassado cerca de R$ 250 mil por mês a Weiss para permanecer no cargo até a aposentadoria.
- Weiss teria recebido cerca de R$ 4,5 milhões em dinheiro vivo, segundo os investigadores. Parte dos valores teria sido movimentada e escondida com ajuda de pessoas próximas.
- Depois da Operação Ícaro, Weiss criou um grupo com oito fiscais para revisar processos de ICMS-ST. A equipe deveria justamente identificar possíveis irregularidades nos ressarcimentos.
- Um dos integrantes do grupo, porém, teria avisado Weiss sobre processos que poderiam ser descobertos pela revisão. Segundo o MPSP, um fiscal relatou a Weiss problemas em pedidos envolvendo grandes empresas e, no dia seguinte, disse que a conversa havia sido “boa” e que o assunto era “página virada”.
- A investigação também encontrou indícios de outras formas de movimentar o dinheiro do esquema, incluindo empresas que teriam sido usadas para emitir notas falsas e lavar pagamentos destinados a envolvidos.
- A Operação Caldarium mira 32 pessoas e empresas, com buscas autorizadas pela Justiça em endereços ligados aos investigados.
Em nota enviada ao Metrópoles, a defesa do advogado João André Buttini de Moraes informa que “está tomando conhecimento dos elementos da investigação e das circunstâncias que levaram à operação da data de hoje (3/9). Em total transparência e colaboração com a investigação, informa que, tão logo tenha acesso integral aos autos do caso, prestará todos esclarecimentos necessários às autoridades competentes”.

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Ver todasSauna para “lavar” dinheiro
Um áudio registrado em 27 de julho de 2023, durante um almoço que reuniu fiscais ligados ao núcleo investigado, traz uma conversa sobre dinheiro em espécie. A gravação estava armazenada no celular do até então supervisor fiscal da Fazenda e reúne integrantes que aparecem nas investigações sobre o esquema.
Durante a conversa, André Weiss conta que pensou em comprar uma sauna em São Paulo. A ideia, segundo ele, não seria apenas ter um lugar para fazer reuniões. O negócio também poderia ser usado para “lavar” dinheiro, porque, como ele próprio observa, em uma sauna, “quase todas” as pessoas pagam em dinheiro vivo. “Quem que vai passar um cartão em sauna? Ninguém”, diz.
Para o Ministério Público, a fala é um indício de que o ex-dirigente discutia uma maneira de dar aparência legal a valores de origem ilícita. A gravação foi submetida a perícia para verificar sua autenticidade. Para o Ministério Público, o conteúdo ajuda a entender como o ex-número 3 teria pensado em ocultar a origem dos valores atribuídos a ele na investigação.
Em nota, a Secretaria da Fazenda e Planejamento afirmou que atua em conjunto com o MPSP na apuração rigorosa dos fatos. “As ações da pasta resultaram na demissão de cinco envolvidos, além de um exonerado e 17 servidores afastados sem remuneração.”
A pasta informou que as empresas envolvidas também estão sendo responsabilizadas, com autuações específicas que já resultaram na constituição de mais de R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros.
“Qualquer novo fato decorrente dos desdobramentos da operação, inclusive de eventuais acordos de delação ou denúncias, será rigorosamente apurado e, comprovadas as irregularidades, serão adotadas as medidas cabíveis.”
“A secretaria reafirma seu compromisso com a rigorosa apuração e responsabilização de eventuais desvios, sem qualquer tolerância com condutas irregulares.”
Em nota, a defesa do advogado João André Buttini de Moraes informa que “está tomando conhecimento dos elementos da investigação e das circunstâncias que levaram à operação da data de hoje. Em total transparência e colaboração com a investigação, informa que tão logo tenha acesso integral aos autos do caso, prestará todos esclarecimentos necessários às Autoridades competentes”.
O Metrópoles busca contato com todos os citados como envolvidos no esquema. O espaço está aberto para atualizações.



