Sintomas comuns da meningite atrasam diagnóstico: "Achei que era virose"
Sintomas iniciais inespecíficos da meningite meningocócica dificultam o diagnóstico da doença grave, atrasam o tratamento e causam sequelas

Quando percebeu que sua filha, Maya Victoria Cristina Silva, à época com 1 ano e 6 meses, estava com febre e vômito, Larissa Oliveira da Silva, de 28 anos, imaginou se tratar de um quadro viral. No entanto, a progressão da doença se mostrou algo mais grave. Posteriormente, a menina foi diagnosticada com meningite meningocócica. O caso ocorreu em julho de 2023.
Inicialmente, a ocorrência de sintomas comuns fez Larissa decidir cuidar da pequena em casa. No entanto, na madrugada, a menina se remexia de um lado para o outro na cama e não respondia aos chamados da mãe. Ao tentar colocá-la sentada, Maya não conseguia se sustentar.

Receba no seu email as notícias de Ciência&Saúde
Frequência de envio: Semanal
Ver todas“Liguei para minha mãe e ela achava que a Maya estava com sono. Na minha cabeça era virose, por isso decidi cuidar dela em casa mesmo”, conta a ex-monitora de van escolar.
O sinal mais grave ocorreu por volta das 6h da manhã, quando a criança começou a convulsionar. Rapidamente, Larissa levou a filha ao hospital mais próximo de onde moram, em São Paulo, e exames confirmaram que Maya estava com meningite meningocócica do sorogrupo B. “Ali, meu mundo caiu”, relata.
Segundo a pediatra e sanitarista Melissa Palmieri, a ocorrência de sintomas iniciais inespecíficos é uma das maiores dificuldades para diagnosticar a meningite.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e Ciência“Nas primeiras horas, a doença se confunde perfeitamente com uma gripe comum ou virose banal: febre, irritabilidade, recusa alimentar e moleza. O médico na triagem de uma UPA ou pronto-socorro muitas vezes não encontra os sinais clássicos nas primeiras 6 a 12 horas, dificultando o início imediato da antibioticoterapia, que é o divisor de águas entre a vida e a morte”, afirma a especialista, que é membro do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
Principais sinais de alerta de meningite meningocócica
- Febre alta e de início abrupto;
- Dor de cabeça muito intensa;
- Rigidez na nuca (dificuldade ou dor ao encostar o queixo no peito);
- Vômitos em jato (sem náusea prévia);
- Sensibilidade extrema à luz (fotofobia);
- Em bebês: abaulamento da moleira (moleira alta), irritabilidade inconsolável ou choro agudo e persistente;
- Surgimento de pequenas manchas vermelhas ou arroxeadas na pele que não desaparecem quando pressionadas.
Vacinação é a principal arma para se proteger da doença
Causada pela bactéria Neisseria meningitidis, a meningite meningocócica é uma infecção bacteriana das membranas em volta do cérebro e da medula espinhal. Por ter rápida evolução e com chances de levar o paciente ao óbito menos de 24 horas a partir dos primeiros sintomas, a condição é considerada grave.
“Mesmo com o tratamento adequado em ambiente hospitalar, a taxa de letalidade global ainda gira em torno de 10% a 20%, e cerca de um em cada cinco sobreviventes fica com sequelas graves e permanentes, como surdez, danos cerebrais ou amputação de membros”, explica Melissa.
Atualmente, a melhor prevenção para a doença continua sendo a vacinação, especialmente para crianças e adolescentes. A imunização desde os primeiros anos de vida protege o indivíduo. Ao mesmo tempo, uma boa cobertura vacinal cria uma imunidade de rebanho, evitando a circulação da bactéria.
“Os adolescentes e adultos jovens são os principais portadores assintomáticos da bactéria na boca e garganta. Eles transmitem o meningococo em sua comunidade (com risco especial em bebês)”, alerta a pediatra.
Os imunizantes atuais disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) são a meningocócica C, para bebês, e a ACWY, para adolescentes de 11 a 14 anos. Para o sorogrupo B, como no caso de Maya, a vacina só está disponível na rede privada, o que tem aumentado os casos causados por essa variação da doença.
Internação gera sequelas e família se readapta
Assim que foi diagnosticada, Maya foi transferida para outro hospital na região com mais estrutura para atendê-la, onde ficou internada por cerca de três meses em uma unidade de terapia intensiva (UTI). No período, a criança sofreu convulsões, duas paradas cardíacas, insuficiência renal e passou por uma cirurgia cardíaca.
“O que mais me afligiu foi ver ela passar por tudo isso e eu não poder fazer nada. Ver várias crianças saindo do hospital e minha filha, não. Tive medo de perdê-la”, relata Larissa.

A menina sobreviveu e recebeu alta em outubro de 2023. No entanto, ficou com sequelas consideráveis, como perda de visão, fala, locomoção e dificuldades de alimentação. Atualmente com quatro anos, Maya segue realizando tratamentos intensivos para recuperar ao menos parte de suas funções neurológicas e motoras.
“Hoje a Maya vem evoluindo: já se alimenta sem a necessidade de sonda gástrica, interage do jeito dela, mas ainda não voltou a andar e nem fala. Mas creio que vai voltar. O processo não foi fácil e ainda é muito difícil para mim e para a nossa família, pois tudo é uma nova rotina, mas só de saber que ela está aqui comigo meu coração transborda de alegria”, diz a mãe.



