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São Paulo

SP: PCC controla 12 das 22 empresas de ônibus na capital, diz investigação

Esquema de infiltração da facção criminosa no transporte público com envolvimento de políticos foi alvo de operação nesta quinta (17/9)

17/09/2026 12:10, atualizado 17/09/2026 13:53
Jéssica Bernardo/Metrópoles
foto colorida de ônibus da Transwolff circulam normalmente no dia em que MPSP faz operação da empresa por suspeita de ligação com o PCC; na imagem, ônibus da empresa no Terminal Santo Amaro - Metrópoles

Autoridades de São Paulo deflagraram, nesta quinta-feira (17/9), a Operação Vectura Corrupta, contra a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público do estado. Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo (MPSP), ao menos 12 das 22 empresas de transporte coletivo da capital seriam, em tese, controladas pelo PCC.

Ao todo, a operação envolve 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão na capital paulista e nos municípios de Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. Entre os alvos, está o ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União), que não foi encontrado pelos policiais e afirmou que se apresentará em 24h. O ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira foi preso nesta manhã.

Entenda a operação contra o PCC no transporte

Segundo a investigação, o suposto esquema envolvia empresas, advogados, integrantes do crime organizado e agentes públicos para alcançar os objetivos da facção.

A ação desta quinta-feira é um desdobramento de outra operação, deflagrada em agosto de 2024 e batizada de Decúrio. Na ocasião, as autoridades identificaram uma rede de comunicação entre integrantes da PCC e trocas de mensagens sobre a atuação do grupo.

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A investigação cita a “contaminação, pelo crime organizado, de empresas de transporte coletivo de passageiros na Capital e no interior”. Essa infiltração, de acordo com as autoridades, ocorria por meio de uma estrutura organizada que combina o uso de empresas de fachada, direcionamento de licitações, apoio político e lavagem de capitais.

Os criminosos também utilizariam os sócios formais das concessionárias e empresas de ônibus como “laranjas” para ocultar os verdadeiros proprietários das empresas, que seriam integrantes do PCC. Além disso, o grupo teria promovido ajustes prévios para direcionar licitações e obter contratos emergenciais em diversos municípios. Há registros de acordos para que as empresas passassem a ser administradas por membros da facção logo após vencerem as licitações, mediante repasse de propinas a agentes públicos.

As facilidades no setor, conforme indica a apuração, seriam obtidas em troca do financiamento de campanhas eleitorais de candidatos e cooptação de agentes públicos. Candidato a deputado estadual, Danilo Morgado (PL) foi preso durante a operação desta quinta-feira. Morgado é investigado por envolvimento com o núcleo político do PCC. Segundo a polícia, a campanha dele ao pleito municipal, em 2024, foi financiada pela facção criminosa.

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Os agentes da PCSP ainda citam encontros periódicos com ex-gestores do sistema público, como o servidor da SPTrans Levi Oliveira, e políticos que atuariam como responsáveis ou proprietários por empresas do setor, como Milton Leite, apontado como dono da Transwolf.

O dinheiro do crime seria injetado no setor de transporte por meio da negociação de veículos e compra/venda de frotas inteiras de ônibus, com pagamentos de comissão aos laranjas, além da transferência de valores entre as contas das empresas e dos investigados.

A apuração também indica a existência de um núcleo chamado “Sintonia dos Gravatas”, composto de advogados e operadores ligados à facção, que teriam o papel de intermediar negociações contratuais, atuar em licitações, gerenciar repasses de comissões e disponibilizar contas bancárias e escritórios para reuniões de integrantes do esquema.

“Em síntese, os elementos descritos pela autoridade policial procuram demonstrar que a atuação investigada extrapolaria o tráfico de drogas, abrangendo a utilização de empresas de transporte, pessoas interpostas, contratos públicos, articulações políticas e estruturas da área da saúde, além de evidenciar suposta divisão de tarefas e subordinação entre os envolvidos, com atuação coordenada em benefício do PCC”, diz um trecho do documento.

Entenda papel dos investigados

Conforme divulgaram as autoridades, Milton Leite foi citado nominalmente nas investigações como responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas pelo PCC. Também há declarações de policiais militares sugerindo que o político comandava empresa de ônibus Transwolf. Já Levi dos Santos Oliveira, da SPTrans, teria se reunido com integrantes do PCC relacionados às empresas de transportes para tratar dos interesses da facção, especialmente após a Operação Fim da Linha.


Quem são os alvos de operação contra o PCC no transporte público

  • André Cassali
  • Carla de Paula Muller
  • Cicero Jose dos Santos Filho
  • Claudionor Aparecido Sabino Tomaz
  • Danilo Marco Morgado Silva
  • Edivania Arruda Botelho Alves
  • Edson Antonio de Souza
  • Eduardo Medeiros
  • José Daniel Satilite
  • José Ronaldo Alves de Sales
  • Julio Salvador Filho
  • Levi dos Santos Oliveira
  • Milton Leite da Silva
  • Milton Mello Milreu
  • Paulo Sirqueira Korek Farias
  • Sergio Luiz Gevaerd de Oliveira

Também alvos de mandados de prisão, José Daniel Satilite e Claudionor Tomaz são sócios da viação Trans Líder, empresa concessionária de ônibus em Cubatão, cidade da Baixada Santista. Nas conversas apreendidas, eles discutiram a manipulação de licitações do transporte público.

André Cassali é apontado como um dos responsáveis pelo setor financeiro do PCC. Carla de Paula Muller, de acordo com a investigação, é esposa de Antônio José Muller Junior, o Granada, um dos líderes do PCC, preso na Penitenciária Federal de Brasília. Ela atuaria na transmissão de recados de interesse da facção a Granada, na exploração do transporte público e como interlocutora do sócio de uma das concessionárias.

Cícero José dos Santos Filho, Eduardo Medeiros e Milton Mello Milreu são advogados e, segundo a apuração, atuavam em favor da facção. Ele teria fornecido o próprio escritório para encontros entre integrantes do PCC.

Danilo Marco Morgado Silva (PL) foi candidato derrotado à Prefeitura de Praia Grande em 2024 e atualmente é candidato a deputado estadual. Há indícios de vínculo com o PCC e de que a facção tenha financiado as candidaturas dele.

Edivania Arruda Botelho e Edson Antônio de Souza são considerados intermediários do grupo criminoso. José Ronaldo Alves de Sales seria responsável por interligar integrantes da facção a políticos com apoio de Julio Salvador Filho, que também deliberava sobre os pagamentos aos laranjas.

Paulo Sirqueira Korek Farias é empresário, gestor de empresas de transporte e “testa de ferro” da facção. Já Sérgio Luiz Gevaerd de Oliveira é mencionado como um intermediador entre um dos advogados e o PCC.

O que dizem os envolvidos

Metrópoles tenta contato com os investigados. Por telefone, Milton Leite negou envolvimento no esquema e destacou que se apresentará às autoridades dentro de 24 horas. A defesa de Levi dos Santos Oliveira afirmou que foi surpreendida com a notícia da prisão e que aguarda acesso aos autos para adotar as medidas cabíveis.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo anunciou que a intervenção determinada na empresa Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida para proteger o sistema municipal de transporte. Na mesma ocasião, a administração municipal determinou a intervenção na UPBus, “mesmo sem qualquer solicitação da Justiça”. A administração municipal diz que sempre agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.

A prefeitura informou ainda que abriu processo pela Controladoria-Geral do Município contra as empresas e, desde então, atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil no processo investigatório.

Também em nota, a Câmara Municipal de São Paulo disse acompanhar os desdobramentos das investigações promovidas pelo MPSP, em conjunto com a Polícia Civil e o Poder Executivo, e aguarda as conclusões.