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Apuração pelo Brasil

São Paulo

Linha 5 vira "campo de batalha" entre segurança e entregador da periferia.

Ameaças e ofensas fazem parte da rotina de hostilidades entre seguranças e entregadores da Linha 5-Lilás, de metrô, na zona sul de SP

05/10/2026 03:00
Reprodução/Redes Sociais
Imagens mostram conflito entre seguranças e entregadores - Metrópoles

A Linha 5-Lilás, do Metrô, tem vivido um clima de guerra entre parte dos entregadores por aplicativo e integrantes do corpo de segurança, com ameaças e ofensas que acabam descambando até para violência física e confusão nas plataformas e no entorno de estações.

Dois episódios recentes são emblemáticos de como a tensão tem escalado entre quem trabalha com delivery, de bicicleta, e o corpo de segurança da concessionária Motiva, responsável pela linha de metrô que cruza a zona sul de São Paulo, da Vila Mariana ao Capão Redondo.

Em 31 de agosto, uma confusão foi filmada por passageiros na Estação Santo Amaro. Dois jovens alegam que foram impedidos de embarcar em um trem com suas bicicletas. Três seguranças tentaram puxar os entregadores, derrubaram as bikes e quebraram o banco de uma delas. Os rapazes tomaram golpes de cassetete.

Dois dias depois, cerca de 70 entregadores foram até a mesma estação e promoveram um tumulto, como forma de protesto, disparando rojões em direção aos seguranças.

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As duas situações, que estão em apuração na Motiva (leia abaixo), fazem parte de um contexto maior, como apurou a reportagem. Os jovens que fazem entregas na região de Moema moram, em grande parte, nos extremos da zona sul, em bairros como Capão Redondo e Jardim Ângela.

Nos horários permitidos, usam a Linha 5 para carregar as bicicletas até estações próximas ao bairro rico, onde há muitas entregas para serem realizadas. Ao viajarem de metrô, poupam as pernas para pedalar durante as longas jornadas. No Capão Redondo, por exemplo, são comuns as longas filas de entregadores à espera das 10h, quando ocorre a liberação para que entrem com suas bikes, até quatro por trem.

“Falta de respeito”

Entregadores acusam os seguranças de agirem com truculência e desrespeito até mesmo ao redor das estações, impedindo-os inclusive de fazer refeições em locais como o entorno da Estação Eucaliptos, nas proximidades do Shopping Ibirapuera.

“É uma área pública e eles falam que não podemos parar almoçar. Xingam, é uma falta de respeito”, diz W, de 25 anos. “Para falar esses negócios, eles colocam as mãos nas câmeras para não gravar, porque eles não são bestas”, afirma.

O entregador conta que já foi enxotado por seguranças do bicicletário disponibilizado pela Motiva em um dia de chuva. “Estávamos lá dentro, de boa, esperando o telefone carregar, e nos colocaram para fora”, disse. “É uma palhaçada, uma tiração.”

O entregador M., de 24 anos, conta que a sequência de humilhações que ele e seus colegas estão sofrendo têm levado as coisas a um ponto sem volta.

“Sem maldade, não queremos amizade, não. Nós queremos ganhar nosso dinheiro. Chegar no cliente, pegar o código [de entrega] e ir embora. Não queremos arrumar treta com ninguém, não”, diz. “Mas vou falar que, de uns dias para cá, está precisando acontecer um bagulho louco mesmo, para os ‘bicos’ [seguranças, nesse contexto] verem que não somos o que eles estão pensando.”

A tensão tem escalado e chega às ameaças. “Eles sabem que, com ‘nós’, não aguentam. Não precisa nem de um ‘bondão’ [grupo grande entregadores]. Uns 10 só e acabamos com tudo aqui. Vai todo mundo embora, fecha estação e acaba com tudo. É, mano. Papo reto”, diz. “Nós já somos estressados. Nem todo dia é um bom dia.”

Os entregadores também são alvo de críticas. A reportagem ouviu de outros usuários de bicicletários das estações que parte dos jovens fuma maconha mesmo dentro desses lugares, o que causa incômodo aos demais.

Diálogo

Entretanto, nem tudo é guerra. A própria reportagem presenciou bate-papos amistosos entre seguranças e entregadores, que preferiram não se identificar. Ouviu também relatos que apontam que as hostilidades não são generalizadas, mas fruto de implicâncias pessoais ou de ações e reações entre os trabalhadores mais “atentados” e os agentes mais “perturbados”, como relatado diversas vezes.

Em um dos casos, na região de Moema, um dos seguranças disse que é morador de bairro na periferia da zona sul e que não via motivo para hostilizar quem trabalha com delivery. Ele conversava com um jovem entregador, que confirmou que a relação é amistosa, com ajuda mútua, quando necessário.

O exemplo da política da boa convivência se repetiria em outros pontos da mesma Linha 5, com diálogo aberto entre as partes.

O que diz a concessionária Motiva

A concessionária Motiva afirma que apura as informações e tomará as medidas cabíveis, caso sejam comprovados excessos ou desvios de conduta.

A empresa diz que repudia qualquer forma de violência e discriminação em suas dependências e reitera seu compromisso com a segurança e respeito aos seus clientes e colaboradores, atuando em parceria com órgãos de segurança pública e a Polícia Militar.

“A conduta da concessionária prioriza o respeito mútuo entre Agentes de Atendimento e Segurança (AAS) e clientes. Qualquer ação que ignore essas premissas não reflete o padrão Motiva de atendimento”, diz, em nota.

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Questionada se existe algum procedimento operacional para lidar com os entregadores, especificamente, a concessionária afirma que “mantém uma agenda contínua de treinamentos e capacitações para suas equipes, com foco na prestação de serviço e na orientação”. “A Motiva promove também campanhas permanentes para seus clientes sobre a utilização adequada e segura do sistema”, diz.

Segundo a concessionária, em eventuais situações de abordagens fora do padrão, a Motiva orienta seus clientes a registrarem ocorrência nos canais oficiais da companhia, para que a empresa possa apurar e tomar as medidas cabíveis. “É importante destacar que as estações, plataformas e trens contam ainda com sistema de monitoramento por câmeras, e as imagens e os procedimentos adotados durante as ocorrências são monitorados”, diz.

A concessionária também afirma que os agentes podem atuar dentro da faixa de domínio da concessão, o que compreende dentro das estações, nas imediações delimitadas, terminais de ônibus sob responsabilidade da Motiva.

Sobre os relatos dos entregadores, a Motiva diz que se preocupa constantemente em oferecer uma experiência segura para todos os clientes. “Quando há indícios de que essa segurança pode ser colocada em risco por qualquer parte, é responsabilidade da concessionária atuar para o restabelecimento da ordem e garantia da segurança de clientes e colaboradores”.

A concessionária afirma que “está aberta a entender a demanda de grupos específicos e trabalhar para que o transporte coletivo seja usado com respeito, conforto e segurança por todos”.

A empresa reforça também a importância do respeito às normas de utilização e segurança das estações, plataformas, trens e imediações. “Entre as regras, estão a proibição da circulação em cima de bicicletas e do embarque em horários não permitidos, do uso de entorpecentes e de aparelhos sonoros sem fones de ouvido e da obstrução das portas de embarque e desembarque, entre outras condutas previstas na regulamentação do sistema”.