Jovens negros são 82% das mortes na Operação Escudo, diz relatório
Instituto Vladimir Herzog aponta, que jovens negros moradores da periferia passaram a ser tratados como o principal alvo das operações

Homens, jovens, negros e moradores das periferias da Baixada Santista concentraram a maior parte das mortes registradas durante as operações Escudo e Verão, realizadas pela Polícia Militar (PM), entre 2023 e 2024, no litoral de São Paulo. É o que aponta um relatório divulgado pelo Instituto Vladimir Herzog, que analisa a atuação das forças de segurança nas ações e conclui que 82% das vítimas tinham esse perfil.
A Operação Escudo aconteceu em julho de 2023, após a morte do policial da Rota Patrick Bastos Reis, durante uma ação no Guarujá. Meses depois, no início de 2024, a Operação Verão foi iniciada após as mortes dos policiais militares Marcelo Augusto da Silva, Samuel Wesley Cosmo e José Silveira dos Santos. As duas ações ficaram marcadas pelo alto número de mortes decorrentes de intervenção policial.
Segundo o levantamento, a violência registrada nas duas operações não atingiu a população de forma uniforme. O estudo afirma que a maioria das vítimas era formada por homens de até 29 anos, negros e moradores de bairros periféricos de cidades como Guarujá, Santos e São Vicente. Além do recorte racial e etário, o documento aponta que muitas dessas pessoas tinham baixa escolaridade, viviam em situação de vulnerabilidade social e, em diversos casos, eram as principais responsáveis pelo sustento da família.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPEntenda a Operação Escudo e a Verão
- A Operação Escudo acontceu em julho de 2023, após a morte do policial da Rota Patrick Bastos Reis, durante uma ação no Guarujá, no litoral de São Paulo.
- A segunda fase teve início no começo de 2024, após as mortes dos policiais militares Marcelo Augusto da Silva, Samuel Wesley Cosmo e José Silveira dos Santos.
- O Governo de São Paulo informou que as operações tinham como foco localizar os responsáveis pelas mortes dos policiais e combater o tráfico de drogas e o crime organizado na Baixada Santista.
- O que aconteceu durante as ações? As operações ficaram marcadas pelo alto número de mortes em intervenções policiais e por denúncias de violações de direitos humanos.
- A Defensoria Pública de São Paulo e a Conectas Direitos Humanos denunciaram o Brasil à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), alegando graves violações de direitos humanos durante as operações Escudo e Verão.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles SP
Frequência de envio: Diário
Ver todasOperação vingança
No relatório, o Instituto Vladimir Herzog classifica as operações Escudo e Verão como exemplos do que chama de “operação vingança”. Esse tipo de ação acontece após a morte de um policial e é marcado por um aumento das mortes causadas por agentes de segurança nos dias seguintes.
O documento afirma que, nesses casos, a letalidade deixa de ser uma consequência da operação e passa a fazer parte da forma como ela é conduzida. O relatório também cita denúncias de invasões de casas sem mandado, agressões, tortura, destruição de objetos, alteração de cenas de crime e justificativas de confronto para explicar mortes de pessoas que estariam desarmadas.
Ainda segundo o instituto, essas ações atingem principalmente jovens negros que vivem nas periferias. Para a entidade, isso reforça a ideia de que esse grupo passa a ser tratado como o principal alvo das operações policiais e faz com que essas mortes sejam vistas com menos comoção pela sociedade.
“Inimigo interno”
Outro ponto abordado pelo relatório é a ideia de “inimigo interno”. O instituto aponta que a política de segurança pública passou a tratar o traficante de drogas como o principal alvo das operações policiais. Para a entidade, essa imagem acaba sendo associada principalmente a homens jovens, negros e moradores das periferias.
Essa associação faz com que esse grupo seja visto, muitas vezes, como naturalmente ligado ao crime, o que, segundo o instituto, ajuda a justificar o uso da força policial e o alto número de mortes durante operações.
O relatório também diz que essa lógica faz com que as mortes dessas pessoas provoquem menos comoção social. Para o Instituto Vladimir Herzog, isso contribui para que casos de violência policial sejam aceitos com mais facilidade e tenham menor cobrança por responsabilização.



