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São Paulo

Imprensa turca denunciou abusos em centro migratório onde morreu brasileiro

Centro de Remoção de Harmandalı, para onde brasileiro foi levado detido, acumula denúncias de vioações. Lucas Medeiros foi dado como morto

15/10/2026 07:00
Imagem cedida ao Metrópoles
Brasileiro morre na Turquia após ser detido em centro de migração - Metrópoles

São Paulo — Jornais turcos, de oposição ao governo Recep Tayyip Erdoğan, denunciaram abusos cometidos contra imigrantes no Centro de Remoção de Harmandalı, em Esmirna, para onde o brasileiro Lucas Nascimento de Medeiros, de 33 anos, foi levado após ser detido entre as madrugadas de 5 e 6 de outubro. Na segunda-feira (12/10), ele foi dado como morto pelo Consulado Brasileiro em Istambul.

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Lucas Nascimento de Medeiros, de 33 anos, morreu após ser levado a centro de detenção migratória na Turquia
Lucas Nascimento de Medeiros, de 33 anos, morreu após ser levado a centro de detenção migratória na Turquia
Centro de detenção migratório onde Lucas foi detido
Lucas enviou a localização do centro migratório à mãe entre os dias 5 e 6 de outubro
Últimas mensagens da mãe a Lucas nunca foram recebidas
Lucas Nascimento de Medeiros, de 33 anos, morreu após ser levado a centro de detenção migratória na Turquia
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Lucas Nascimento de Medeiros, de 33 anos, morreu após ser levado a centro de detenção migratória na Turquia

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Lucas Nascimento de Medeiros, de 33 anos, morreu após ser levado a centro de detenção migratória na Turquia

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Centro de detenção migratório onde Lucas foi detido
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Centro de detenção migratório onde Lucas foi detido

Reprodução/Google Maps
Lucas enviou a localização do centro migratório à mãe entre os dias 5 e 6 de outubro
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Lucas enviou a localização do centro migratório à mãe entre os dias 5 e 6 de outubro

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Últimas mensagens da mãe a Lucas nunca foram recebidas
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Últimas mensagens da mãe a Lucas nunca foram recebidas

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“Constantes violações de direitos humanos”

Ao noticiar a morte de um refugiado sírio, de 21 anos, em um incêndio no quinto andar do Harmandalı, em 2021, o jornal Artı Gerçek afirmou que a unidade protagoniza diversas notícias com alegações de maus-tratos e tortura de refugiados.

A Ordem dos Advogados de Esmirna é personagem frequente nessas reportagens, denunciando os abusos supostamente cometidos no local e as “constantes violações de direitos humanos”.

Em julho deste ano, a entidade apresentou novos relatórios e registros relativos a violações no centro de deportação. Segundo os advogados, chamou a atenção especialmente a negação de acesso a cuidados de saúde, condições de higiene inadequadas e práticas prolongadas de detenção administrativa. Os relatos foram feitos por funcionários da instituição.

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A Ordem dos Advogados destacou ainda que o local enfrenta escassez de água, sarna e outras doenças infecciosas semelhantes, de forma generalizada. Além disso, os materiais de limpeza são insuficientes e as condições de vida pioraram piorado devido à superlotação (veja mais abaixo).

Ao apresentar as informações à imprensa, a entidade destacou que a Constituição turca proíbe a tortura e os maus-tratos, e que continuará acompanhando as denúncias sobre a unidade “para proteger a dignidade humana e garantir o cumprimento das exigências do Estado de Direito”.

Superlotação, agressão e suicídio

Antes da morte do refugiado sírio, o jornal Bianet, em parceria com o Artı Gerçek, já havia publicado relatos sobre espancamentos, tentativas de suicídio, doenças e mortes no Harmandalı.

As denúncias foram endossas à época pelo membro do parlamento de Esmirna, Murat Bakan, atual integrante da Grande Assembleia Nacional da Turquia pelo Novo Partido (Yeni Parti), de oposição ao governo e fundado recentemente, em julho deste ano.

Em 2019, o portal afirmou que 1.500 pessoas estavam detidas em um local projetado para 750. “Aqueles que não querem ser deportados tentam suicídio constantemente”, apontou a matéria.

Segundo a reportagem, os funcionários do local, com a saúde mental cada vez mais deteriorada, se recusavam a levar comida a uma mulher que vivia com Aids, mantida em um “andar de alta segurança”.

O Bianet denunciou ainda que os detidos ali, em contexto de superlotação, brigavam com frequência entre si. Os funcionários, em significativo menor número, se excediam na força física para conter os envolvidos.  Segundo o portal, os refugiados eram espancados em salas sem câmeras de segurança.

Reação do governo turco

Cerca de 10 dias após a publicação da reportagem do Bianet em parceria com o Artı Gerçek, o governo de Esmirna, terceira maior cidade da Turquia, publicou uma nota negando as alegações divulgadas pela imprensa e por Bakan.

“Até o momento, alguns advogados filiados à Ordem dos Advogados de Esmirna, agindo por motivos ideológicos, fizeram diversas alegações a respeito do Centro de Deportação de Harmandalı, numa tentativa de enganar o público. Cada alegação foi tratada com a devida cautela, as investigações necessárias foram conduzidas e todas se mostraram infundadas”, disse a nota.

Segundo a publicação, o estabelecimento tem sido inspecionado regularmente pelo governo “todos os meses desde 2016”. A gestão Erdoğan afirmou ainda que também investigaria as alegações de maus-tratos a estrangeiros publicadas na imprensa.

O Metrópoles não localizou notícias mais recentes do governo de Esmirna sobre o centro de detenção.

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Brasileiro morre após ser detido na Turquia

O brasileiro Lucas Nascimento de Medeiros, de 33 anos, estava de férias na Turquia quando foi dado como morto pelo Consulado Brasileiro em Istambul. Sete dias antes, ele foi detido e levado a um centro de detenção migratória no país.

Na madrugada, entre 5 e 6 de outubro, o brasileiro contou para a mãe, moradora de São Paulo, que havia se envolvido em uma briga com cidadãos locais por conta de religião.

De origem judaica, Lucas tinha uma tatuagem grande da bandeira de Israel com o Leão da tribo de Judá, e usava com frequência um colar com a Estrela de Davi, como disse o irmão dele, Marcos Medeiros, ao Metrópoles.

Segundo o irmão, essas características podem ter incitado algum tipo de desentendimento com religiosos locais, de maioria islâmica. Ainda assim, Marcos demonstrou surpresa ao saber que Lucas vivenciou tal situação.

“Meu irmão sempre foi um cara progressista, nunca foi um cara preconceituoso, nunca foi xenofóbico… nem extremista religioso, nada, nada. Meu irmão sempre foi tranquilo”, disse.

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Na briga, o empresário chegou a ter o rosto cortado. Ele procurou as autoridades turcas e acabou sendo retido no Centro de Remoção de Harmandalı, em Esmirna, para ser deportado.

Naquela mesma madrugada, Lucas enviou à mãe a localização do centro de detenção (veja galeria de fotos acima). Ele também ligou para combinar que chegaria a São Paulo nessa segunda-feira (12/10), o que seria uma parada para conhecer as sobrinhas, que nasceram recentemente, antes de retornar à Europa.

Em 8 de outubro, no entanto, Lucas parou de responder às tentativas de contato dos familiares. No último sábado (10/10), as mensagens enviadas a ele pararam de ser recebidas.

Apesar da falta de contato, a mãe de Lucas foi até o Aeroporto de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, às 5h da manhã, esperar pelo filho.

Às 14h do mesmo dia, a ex-companheira do empresário, que havia acionado o Consulado do Brasil em Istambul por e-mail, recebeu uma ligação da representação consular na Turquia afirmando que um corpo foi encontrado em um hotel com drogas ilícitas e o passaporte do brasileiro. Lucas foi dado como morto.

Local da morte

A família ficou consternada com a versão apresentada pelas autoridades turcas. “Como é que a pessoa tá no centro de imigração e é encontrado no hotel?”, questionou Marcos.

A mãe e o irmão do empresário procuraram a Polícia Federal (PF), que disse não ter atribuição para lidar com o caso, direcionando os dois para a Polícia Civil de São Paulo. Um boletim de ocorrência foi registrado no 7º Distrito Policial (DP), onde a família contatou mais uma vez o Consulado Brasileiro na Turquia por telefone.

Durante a ligação, a representante consular foi confrontada com as coordenadas de GPS enviadas por Lucas da cela. Diante das informações obtidas pela família, a narrativa do hotel se tornou mais frágil. Segundo Marcos, pouco depois, as autoridades turcas recuaram e admitiram que o episódio se deu dentro da unidade migratória.

“Eles mudaram de versão porque foram trucados com a questão da localização. Se assustaram quando souberam que meu irmão tinha sido mais esperto do que eles e mandando uma localização para a gente”, disse Marcos.

Ele destacou ainda que a representação consular tem se comunicado com a família apenas por ligação. O e-mail enviado pela ex-companheira de Lucas, por exemplo, nunca foi respondido.

“Eles não querem mandar mensagem. Eles só falam de forma escusa por ligação. Isso tá muito errado. Só por ligação. Eles não querem se comunicar por mensagem, nem querem se comunicar por e-mail”, reforçou o irmão do empresário. Nessa quarta-feira (14/10), a irmã de Lucas viajou com o marido para reconhecer o corpo, na Turquia.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores (MRE), por meio do Consulado-Geral do Brasil em Istambul, informou que tem conhecimento do caso e está em contato com a família, “a quem tem sido prestada a assistência consular devida”.