Golpes explodem e roubos recuam no Brasil em nova dinâmica do crime
Brasil teve um estelionato a cada 14 segundos em 2025, com explosão dos registros de golpes em meio à queda generalizada nos roubos

Golpes e mais golpes. Fraude em cima de fraude. O Brasil teve 2,261 milhões de estelionatos registrados em 2025, um aumento de 429,8% na comparação com 2018, primeira aparição desse tipo de crime na série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23/7).
O crescimento dos golpes ocorre em paralelo à redução de crimes praticados nas ruas, como homicídios, latrocínios e os diversos roubos, quando os ladrões usam de violência física para obter algum bem da vítima. Na prática, o Brasil teve um estelionato a cada 14 segundos em 2025, segundo os dados coletados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostrando uma nova dinâmica no mundo do crime.
Além do crescimento de 2,7% nos estelionatos em geral (de 2.193.122 para os 2.261.055 casos), também chama a atenção o aumento no número de casos registrados como tendo ocorrido exclusivamente por meio eletrônico (20,6%), especificamente (de 286 mil para 347 mil).

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Ver todasNão por acaso, pesquisa do FBSP mostra que os golpes são o tipo de crime que mais desperta o medo entre brasileiros, com 83,2% da população demonstrando o temor de ser vítimas de fraudes por internet ou celular.
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- Veículos — -20,6%
- Transeunte — -23,4%
- Estabelecimento comercial — -18,3%
- Residência — -19,9%
- Instituição financeira — -35,5%
- Carga — -19,8%
- Celular — -18,6%
Entre as unidades da federação, São Paulo aparece com a maior taxa de registros de estelionatos por 100 mil habitantes (1.808,3). Não por acaso, já foi detectada a presença de centrais até mesmo na Avenida Brigadeiro Faria Lima, coração financeiro do país.
O estado de São Paulo é seguido no “ranking do golpe” por Distrito Federal (1.717), Paraná (1.339,1), Rondônia (1.329,6), Santa Catarina (1.294,8), Espírito Santo (1.254,7) e Goiás (1.075,6).
A análise divulgada pelo FBSP e produzida pela diretora executiva, Samira Bueno, pelo diretor presidente, Renato Sérgio de Lima, e pela gerente de projetos e dados, Isabela Sobral, chama a atenção para o perfil geográfico com maior incidência. “O padrão sugerido pelos dados é o de que a taxa de registros acompanha, ainda que imperfeitamente, o grau de bancarização, digitalização e integração ao sistema financeiro formal de cada estado — o que ajuda a explicar por que unidades mais urbanizadas e digitalmente conectadas, como São Paulo e Distrito Federal, encabeçam a lista”, afirmam.
Ainda assim, há uma ressalva em relação aos números, com a explicação de que se referem aos registros, não necessariamente às ocorrências reais. Pesquisa realizada em março pelo FBSP apontou que 15,8% da população com mais de 16 anos sofreu algum golpe ou perdeu dinheiro pela internet ou celular em 2025. Portanto, isso corresponderia a 26,3 milhões de pessoas, número muito superior ao detectado pelas estatísticas oficiais.
Padrão industrial
A análise dos especialistas mostra também que há um “padrão industrial” na aplicação de golpes, com operações estruturadas e envolvimento das grandes facções criminosas, como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). O FBSP aponta “estrutura empresarial, financiamento faccional e capacidade de captura do sistema financeiro”.
Como comparação, levando-se em conta apenas os crimes efetivamente registrados, o Brasil tem taxa média de estelionatos 20% maior que a dos Estados Unidos (1.059,43 a 882,83 por 100 mil habitantes).
O Anuário mostra também um gargalo de impunidade em relação aos estelionatos. Segundo os dados oficiais coletados pelo FBSP, apenas 2,8% das ocorrências chegam ao Poder Judiciário, tornando-se processos judiciais.
“Dar golpes no Brasil oferece riscos excepcionalmente baixos de punição, mesmo para um país que tem baixos índices gerais de esclarecimentos de crimes”, afirmam os responsáveis pela análise.
O cruzamento das informações mostra também, segundo o FBSP, que contas-laranja servem para a rápida dispersão do dinheiro, o que demonstraria que as instituições financeiras têm muito controle sobre quem via, “mas ainda analisam de maneira limitada a conta que recebe os recursos”.



