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São Paulo

Evangélico "desigrejado" é menos bolsonarista e conservador, mostra estudo

Pesquisa mostra que desigrejados já representam 18% dos evangélicos do país e têm perfil mais progressista

24/09/2026 03:00
Guí Primola / Arte Metrópoles
imagem colorida mostra ilustração com grupo de pessoas reunidas em uma sala. um homem segura um livro aberto em pé e os demais olham para ele.

Evangélicos sem vínculos com igrejas, os chamados desigrejados, são menos bolsonaristas e menos conservadores do que aqueles que são membros de alguma instituição. É o que mostra um estudo feito por pesquisadores das universidades de Reading, no Reino Unido, e Frankfurt, na Alemanha, que acaba de ser publicado.

A pesquisa, assinada pelo brasileiro Victor Araújo em conjunto com a italiana Valeria Rainero, mostra um campo onde a esquerda tem potencial de crescimento entre os evangélicos, às vésperas do primeiro turno das eleições.

Os pesquisadores avaliaram as respostas de 1.514 brasileiros, com 18 anos ou mais, em um questionário on-line. Para averiguar o número de desigrejados, a pergunta sobre a religião do entrevistado incluía a opção “Evangélico(a), mas NÃO sou membro de nenhuma igreja”. Quem selecionou a alternativa foi classificado como evangélico desigrejado.

No questionário, os entrevistados opinavam sobre temas como aborto, homossexualidade, divórcio, eutanásia e prostituição, dando notas de 0 a 10 em uma escala de conservadorismo moral – quanto mais alta a nota, mais conservador. Eles também foram perguntados sobre como votaram no primeiro e no segundo turno das eleições de 2022, e como votariam se pudessem voltar no tempo para aquela mesma eleição.

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Como foram os resultados?

  • Os resultados mostraram que os evangélicos desigrejados já correspondem a 5% da população em geral e representam 18% do número de evangélicos do país.
  • Na escala de conservadorismo, enquanto os evangélicos vinculados a igrejas tiveram nota média de 7,11 nas respostas, entre desigrejados o valor caiu para 5,79. O número é menor, inclusive, que a média registrada pelos católicos, de 5,85.
  • Quando o assunto é a eleição de 2022, o percentual daqueles que votaram em Jair Bolsonaro (PL) e se mostraram confortáveis com o voto também muda entre os grupos.
  • Manteriam o apoio ao ex-presidente aproximadamente 58% dos evangélicos ligados às igrejas, contra 39% dos desigrejados. Entre os católicos, o índice é de 43%, segundo o estudo.

Professor de Política Comparada na Universidade de Reading e um dos autores do estudo, Araújo diz que os dados indicam que os desigrejados podem estar mais abertos à campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que os evangélicos congregacionais.

“Esse é o grupo dos evangélicos que o PT tem margem para crescer, para tentar ganhar um pouco mais de votos”, afirma o professor. A última pesquisa Datafolha mostrou Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula entre os evangélicos, com 48% das intenções de voto contra 26% do petista.

Araújo diz que o perfil dos desigrejados também traz um dado interessante para a campanha lulista porque a maioria dos desigrejados é de mulheres, fatia importante do eleitorado no país.

Perfil dos desigrejados

A pesquisa também procurou mensurar a importância que os desigrejados dão para a religião, com que frequência eles vão à igreja e qual o perfil deste grupo. Para 93% dos desigrejados, a religião é considerada importante em suas vidas, apesar da falta de vínculo com as igrejas.

“Essas pessoas tendem a participar mais de cultos no plano local, células em casa, reuniões entre amigos que professam a mesma fé. É uma profissão de fé um pouco mais fluída, menos institucionalizada”, explica Araújo.

Ele conta que o grupo é formado, também em sua maioria, por filhas de pais evangélicos, e com até 35 anos de idade.

“Os evangélicos brasileiros são, em sua maioria, filhos de católicos. E os desigrejados são, em sua maioria, filhos de evangélicos. Esse é um movimento da transição religiosa no Brasil que ainda não estava tão bem documentado”, afirma Araújo.

O pesquisador diz que ainda é necessário entender quais são as causas do desigrejamento, mas arrisca algumas hipóteses. Uma delas é a resistência das gerações mais novas às questões doutrinárias sobre homossexualidade, por exemplo.

“Pessoas que se percebem como homossexuais, mas querem continuar praticando a fé cristã, se veem num lugar muito difícil. A alternativa no passado tendia a ser o abandono da religião, mas recentemente tem sido uma ressignificação da própria religião,  que leva você a se desigrejar, mas você continua lendo a Bíblia em casa, participando de células, professando a sua fé”, afirma.

Outras hipóteses poderiam ser, segundo ele, uma reação a um suposto incômodo com o nível de politização dos cultos ou um incômodo com comportamentos dos líderes da igreja, que poderiam ter atitudes diferentes daquelas que eles pregam (casos de corrupção, por exemplo).