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São Paulo

Ex-mórmons denunciam controle mental, exploração e rituais secretos

Relatos incluem pressão psicológica, cobrança de dízimo, interferência em relações pessoais e cerimônias com simulação de punições violentas

23/08/2026 02:10, atualizado 23/08/2026 09:49
Emily Elconin/Getty Images
Dissidentes da igreja mórmon denunciam controle mental e exploração - Metrópoles

Ex-membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a igreja mórmon, uniram-se para denunciar exploração financeira e controle mental na instituição.

Fontes ouvidas pela reportagem descreveram rituais secretos com simulações de penalidades violentas, como cortar a garganta dos fiéis. Os relatos também incluem endosso ao racismo, ao patriarcado, à exploração financeira e ao batismo de pessoas mortas sem o consentimento da família. Procurada pelo Metrópoles, a igreja não se manifestou.

“Roubaram a minha esposa”

O professor e pesquisador Carlos Alberto Dutra Fraga Filho passou cerca de 10 anos vinculado à igreja, experiência que lhe rendeu até um livro. Na obra, relata como teria se envolvido com a doutrina e como a relação teria culminado em episódios que descreve como perseguição, ameaça e ações judiciais.

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O escritor contou à reportagem ter sido bem acolhido quando passou a visitar uma unidade da igreja no Espírito Santo, em 2012. Três anos depois, ele escolheu a tradição mórmon para se batizar e se casar. Segundo ele, porém, o acolhimento teria se transformado em um fardo.

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A situação teria se agravado, de acordo com Fraga Filho, quando ele e a esposa iniciaram um processo de separação. O pesquisador afirma que representantes da doutrina teriam interferido diretamente no relacionamento, o que, segundo ele, teria contribuído para o rompimento definitivo do casal.

Fraga Filho afirma que um advogado membro da igreja, contratado para acompanhá-los durante o processo, teria determinado que ele e a ex-esposa interrompessem o contato. Segundo o pesquisador, a medida teria ocorrido depois que ele se afastou da doutrina. “Sinceramente, eu senti que a roubaram”, relatou.

Segundo o pesquisador, o mesmo advogado teria recorrido à Justiça para solicitar medidas protetivas em favor da ex-esposa dele, com o objetivo de impedir uma eventual reaproximação entre os dois. O pesquisador afirma, porém, que a mulher continuava a procurá-lo por questões pessoais e de saúde.

Ele também afirma que uma psicóloga contratada pelo advogado teria elaborado um parecer psicológico no qual lhe atribuiria um transtorno, embora, segundo ele, nunca o tivesse consultado nem sequer o visto pessoalmente.

Fraga Filho acionou a Justiça, em junho deste ano, contra os dois profissionais. Ele solicita uma indenização por danos morais decorrentes de fraude processual, assistência técnica fraudulenta, litigância opressiva e abuso de direito.

Ele também entrou com representações na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e no Conselho Regional de Psicologia (CRP). As apurações pelos órgãos competentes estão em andamento.

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Exploração financeira, racismo e batismo “pós-morte”

O advogado e contador Everton Alexandri afirma ter ingressado na igreja mórmon aos 7 anos de idade, por influência da família.

Ele contou à reportagem que seguidores da liturgia praticam uma espécie de “love bombing”, com o objetivo de atrair mais fiéis para a religião. Para ele, o foco da igreja são pessoas emocionalmente vulneráveis. Assim que a atenção é captada, o batismo é realizado. “É tudo muito rápido, para a pessoa não ter tempo de pensar”, disse.

Na sequência, ele alega que começa a exploração financeira. Alexandri relatou a obrigação de cada fiel em pagar 10% do rendimento bruto mensal como dízimo à igreja. Sem o pagamento, o membro fica impedido de entrar em qualquer templo.

Segundo ele, o dízimo é cobrado prioritariamente – isto é, deve ser a primeira conta a ser paga por um membro no mês. “É uma prova de fé que você dá para o grupo. Então eles te extorquem e dizem que você está devolvendo para Deus. Se tu tem, é porque Deus te deu, através deles”, relatou.

Alexandri detalhou, ainda, que os membros da liturgia são submetidos a intenso controle social e jogados ao ostracismo, sendo obrigados a se afastar de dissidentes e pessoas de fora da religião. “A justificativa é que elas podem ser influenciadas pelo demônio”, contou.

O advogado afirma ter ingressado na igreja por influência da mãe, que, segundo ele, teria sido excomungada anos depois de se afastar da instituição e retornar. Alexandri relata que ela teria sido submetida a um comitê disciplinar e que o processo teria sido bastante doloroso.

“Nesses tribunais, não existe o devido processo legal, ampla defesa ou contraditório. Eles te acusam, te expõem e todo o grupo fica sabendo. Eu não vi assassinos ou criminosos perigosos chorar como aquela mulher chorou aquele dia. Chorava copiosamente com medo de ir para o inferno”, lembrou.

Alexandri também afirma que práticas que considera racistas e discriminatórias contra mulheres fariam parte da história da instituição. Segundo ele, o sacerdócio seria negado às mulheres e, historicamente, a pele escura teria sido associada a uma “maldição”. Ele afirma ainda que pessoas negras só teriam sido admitidas no sacerdócio na década de 1970.

A avó de Alexandri, que não era mórmon, teria sido batizada após a morte, a pedido de sua mãe – apesar de, segundo ele, ter deixado claro em vida que nunca seguiria a religião. “Existe uma pia batismal com cabeças de bois, tudo feito em mármore, é muito bonito, por sinal. E tu vai lá e eles usam o teu corpo para batizar mortos”, contou o dissidente.

Modelo BITE e controle social

A pesquisadora Vania Moore, brasileira radicada em Salt Lake City (EUA), sede mundial da igreja mórmon, aponta que a tradição utiliza do modelo BITE para controlar fiéis.

De acordo com o profissional da saúde mental e especialista na área de seitas, Steven Hassan, a metodologia reúne quatro áreas de controle, comumente utilizado em grupos extremistas e relações abusivas: Behavior (Comportamento), Information (Informação), Thought (Pensamento) e Emotion (Emoção).

Conforme Vania, a igreja mórmon controla o modo de agir dos fiéis e o acesso à informação pela comunidade religiosa, além do pensamento e das emoções.

“Você não é livre para pensar, você não é livre para escolher, você faz o que eles mandam você fazer. Eles falam que é o chamado de Deus. Então, eles controlam o seu pensamento, eles te passam uma visão de mundo e, agora, a posição daqui é aquela visão. Você não vai questionar basicamente”, denuncia.

Segundo a pesquisadora, a pressão, utilizando a palavra de Deus, é tamanha que causa o sentimento de remorso persistente nos religiosos. “Se você não aceitar um chamado, você vai ficar com medo e não vai recebendo bênção e vai ser castigada. Então, o controle emocional é muito grande”, destacou.