Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Eleições 2026São Paulo

Democracia sem debate: por que candidatos têm evitado confrontos em 2026?

Entre Tarcísio e Haddad, apenas dois dos quatro debates programados aconteceram. Nas eleições presidenciais, o cenário é ainda mais grave

01/10/2026 02:00
Montagem Metrópoles
Democracia sem debate: por que candidatos têm evitado confrontos em 2026?

Ao longo das últimas eleições, uma prática historicamente tida como contrária aos princípios democráticos tem se tornado cada vez mais comum como estratégia de campanha: a ausência nos debates. Nas eleições de 2026, as faltas têm sido uma forte tônica tanto na disputa pelo governo de São Paulo quanto no pleito presidencial, com candidatos de ambos os lados do espectro político deixando os eleitores à deriva.

Entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), os dois principais candidatos na corrida rumo ao Palácio dos Bandeirantes, deveriam ter sido realizados quatro debates antes do primeiro turno, que ocorre neste domingo (4/10). Na realidade, apenas dois aconteceram: o primeiro, na Band, no dia 9 de agosto; e o último, na TV Globo, na terça-feira (29/9).

Nos 51 dias que separaram os dois encontros entre os políticos, outros dois debates deveriam ter sido realizados: um promovido por um consórcio de veículos de imprensa, no dia 18 de setembro, e outro na Record TV. Em ambas as ocasiões, Tarcísio optou por não participar, levando ao cancelamento de um dos debates e à realização de uma sabatina de meia hora com Haddad, no outro.

O fenômeno não é novo, mas sua reincidência e tipo de motivação têm chamado atenção de cidadãos e especialistas. Em 2014, por exemplo, o então governador paulista e candidato à reeleição Geraldo Alckmin faltou ao primeiro debate da campanha — o fez, no entanto, por razões médicas, o que foi encarado de forma leve por seus adversários, que se limitaram a desejar pronta recuperação ao político.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SP

A situação difere da observada em 2018, quando o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PL) evitou — e foi criticado — por, já liberado por sua equipe médica após sofrer uma facada durante a campanha, participar de qualquer um dos debates com Fernando Haddad no segundo turno — algo caracterizado pelo próprio Bolsonaro como “estratégia”, à época.

Ausências estratégicas

Em 2022, quatro anos depois, os mesmos Tarcísio e Haddad se enfrentaram em um “primeiro round” da disputa pelo governo de São Paulo. À época, também foram realizados quatro debates antes do primeiro turno. Todos eles contaram não apenas com as presenças dos dois, mas também dos outros três candidatos mais bem colocados nas pesquisas da época — Rodrigo Garcia, Vinicius Poit e Elvis Cezar.

No segundo turno, entretanto, Tarcísio já havia dado uma amostra de seu uso estratégico dos debates. Dos cinco confrontos que deveriam ter sido promovidos, o então candidato participou de somente dois — novamente, o primeiro (Band) e o último (TV Globo). Dos outros três, dois se tornaram sabatinas com o petista e um foi cancelado.

Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV), a postura pode ter a ver com a posição ocupada pelos candidatos em cada um dos pleitos. Teixeira lembra que, em 2022, não havia segurança sobre a eleição de Tarcísio, que aparecia como um forasteiro na disputa — “menos o Tarcísio e mais o candidato de Bolsonaro”, analisa o professor, que também destaca o fato de o agora governador ter se projetado como aliado do bolsonarismo logo às vésperas do início da campanha.

Em 2026, no entanto, Tarcísio não só ocupa a cadeira, como tem um governo de alta aprovação, o que acaba por alterar a função de um debate para ele. Ao invés de ser apenas um “candidato do Bolsonaro”, ele é o candidato de si próprio, com o apoio do bolsonarismo sendo menos um requisito e mais uma espécie de “bônus”.

“O Tarcísio está muito à frente. O debate hoje oferece mais risco para quem está na liderança do que oportunidade”, afirma Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Na eleição presidencial, o cenário é ainda mais grave: os dois principais candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que concentram quase 90% das intenções de voto, segundo as pesquisas, ainda não compareceram a nenhum dos três debates que deveriam ter sido realizados até então. O petista, inclusive, já confirmou que não estará no debate da TV Globo, nesta quinta-feira (1/10), dando preferência a uma participação no Flow Podcast. Flávio irá.

Redes sociais atuam como moedor

Prando também sugere que o ambiente das redes sociais pode colaborar para a adoção desse tipo de estratégia, em função do desgaste que a produção de cortes pode gerar.

“Há uns anos atrás, se você tinha um debate numa quinta ou sexta-feira, como aconteceu em 1989 […], as pessoas consumiam no jornal, tendo que ler, ou ouvindo no rádio, ou assistindo televisão”, analisa o cientista.

“Hoje, você tem um debate que imediatamente vai gerar corte para as equipes lançarem nas redes sociais e, se for algo que desgasta, desgastará sexta, no momento do debate, a madrugada da sexta-feira toda, no sábado o dia todo e no domingo até a hora da votação”, acrescenta.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles SP

Frequência de envio: Diário

Ver todas as newsletters

Nacionalização da política estadual

Tanto para Prando quanto para Teixeira, o ambiente de polarização política vivido pelo país ao longo da última década também tem influência sobre o fenômeno, na medida em que candidatos a governos estaduais, como Tarcísio e Haddad, acabam atuando como uma espécie de representantes ou porta-vozes do plano nacional, como Lula e Jair/Flávio Bolsonaro — justamente como ocorreu no debate desta terça-feira, com os candidatos defendendo as gestões de seus respectivos patronos e fazendo mais ataques de cunho partidário que proposições de fato.

“Tem um fator incontornável que, na grande maioria das vezes, os debates têm sido bem menos para discutir políticas públicas e projetos de governo e muito mais servir de espaço de ataque entre os candidatos. E convenhamos, não faltam ataques de um lado ou de outro”, afirma Prando.

Ainda na visão do cientista, o fim da “Era Lula” pode devolver parte da importância perdida pelos debates.

“A depender do resultado das eleições e pensando que é o fim da Era Lula, sem ele em 2030, [pode ser que] despolarize o Brasil, talvez os debates ganhem novamente dimensão, importância”, refletiu. “Vale ressaltar que o Lula participa de debates de eleições desde 1989. Eu tinha 11 anos em 89 e o Lula era candidato à Presidência. Hoje, eu estou com 48 anos e o Lula é o candidato à Presidência.”

“Talvez a gente tenha mudanças se o Lula se retira do cenário político e, com isso, outros ganhem evidência. E aí o debate passa a fazer sentido”, concluiu Prando.

O formato deixou de fazer sentido?

Desde os tempos da Grécia Antiga, o debate é uma das pedras fundamentais da democracia, de tal forma que ambos os especialistas concordam que, para um regime democrático saudável, é indispensável que a troca de ideias ocorra. No entanto, dúvidas são levantadas a respeito da eficiência do atual formato.

“Esse formato, da forma que está hoje, talvez não faça muito sentido”, reflete Teixeira. “Quando você se vê obrigado a confrontar candidatos que não são competitivos… Para uma eleição, o que para a população interessa é saber dos dois principais candidatos. Talvez devêssemos dar um pouco mais de liberdade para os meios de comunicação organizarem em torno daquilo que o cenário político está colocando como mais importante.”

Apesar disso, ele destaca a importância de debater: “O ponto-chave do debate é o contraponto. É a surpresa, é você trazer elementos que desconcertam o adversário. Isso é bom porque esse contraponto permite à população estabelecer diferenças. Quando se nega a um debate dessa natureza, você não está colaborando com o processo democrático também”, afirma.

“Você está fazendo com que a população escolha, como está sendo comum nessa eleição, muito mais contra alguém do que a favor de uma candidatura”, finaliza o professor.