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São Paulo

Cantareira: padrão de chuvas “evapora” e entrada de água muda em 15 anos

Cantareira teve redução nas médias históricas e mudança no padrão de chuvas, mais intensas e curtas, muda entrada de água no sistema

14/09/2026 02:45
William Cardoso/Metrópoles
Imagem mostra Estação de Tratamento de Água do Guaraú, parte do Sistema Cantareira - Metrópoles

A última semana até pode iludir quem espera por dias melhores no Sistema Cantareira, mas o fato é que o passado já não serve de bússola para a realidade atual, de crise climática. O padrão de chuvas no Sistema Cantareira “evaporou”, com suas respectivas médias históricas. Como resultado, a quantidade de água que entra nas represas é cada vez mais incerta e tende, de forma geral, a um volume menor do que no passado.

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Estação de Tratamento de Água do Guaraú, parte do Sistema Cantareira
Estação de Tratamento de Água do Guaraú, parte do Sistema Cantareira
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Estação de Tratamento de Água do Guaraú, parte do Sistema Cantareira

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A variação também foi detectada pela própria SP Águas, do governo estadual de São Paulo. “As nossas projeções, inclusive da curva de contingência, já consideram um parâmetro de 60%, 70%, 80% da média histórica, que é o que a gente tem visto”, afirma a diretora-presidente do órgão, Camila Viana.

A representante da SP Águas diz que as séries não são mais estacionárias com as mudanças climáticas. “O comportamento do passado não é mais representativo do futuro. A gente não sabe o que esperar”, afirma.

Segundo Camila, outro ponto é que não só a pluviometria está abaixo da média, algo que seria problemático por si só, mas também as temperaturas estão mais elevadas. “O que deixa os solos mais secos, compromete a umidade e a recuperação da vazão natural, que também está abaixo da média”, afirma.

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O Metrópoles analisou chuva e vazão natural ao longo de 191 meses, desde outubro de 2010. Pelo levantamento, 68% dos meses tiveram chuvas abaixo daquela que era a média histórica na ocasião. Já 91% dos meses tiveram vazão natural (quantidade de água que entra no sistema) abaixo da média histórica. Foram considerados os dados dos boletins diários dos mananciais, levando em conta sempre no último dia de cada mês.

O ano hidrológico começa em outubro e se encerra em setembro. A mudança ao longo de 15 anos (entre 2010/2011 e 2024/2025) foi tamanha que influenciou significativamente as próprias médias históricas ao longo do tempo. Nesse quesito, houve queda nas chuvas e nas vazões naturais em quase todos os meses, exceção feita a junho (redução apenas na vazão).

Outra mudança preocupa especialistas e a diretora-presidente da SP Águas. Mais comuns recentemente, as pancadas de chuva intensas e de curta duração têm menor capacidade de encher os reservatórios. “Precisa cair um pouco mais devagar, ao longo de um período maior. Isso favorece a infiltração no solo. Com o solo muito seco e chuva rápida, ele não consegue absorver e o manancial não se recupera”, diz Camila.

Padrão de chuva

Professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), o cientista Paulo Artaxo afirma que as chuvas mais intensas têm se tornado mais comuns.

“O número de dias em que chove mais de 100 mm, no mesmo dia, aumentou por fator quatro [quatro vezes o original] ao longo dos últimos 40 anos. Portanto, o padrão de chuvas efetivamente mudou bastante”, afirma.

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Artaxo diz que não tem dados precisos sobre a relação entre chuvas intensas e mais curtas com a variação na vazão, mas vê a possibilidade de alteração. “Isso também pode ter mudado, porque mudou toda a dinâmica da fluidez de água, por causa da maior impermeabilização e da mudança do padrão de precipitação”, afirma.

O professor da USP afirma que é necessário ter mais políticas públicas para dar segurança hídrica em todos os grandes centros urbanos do país. “Estamos tendo alterações muito rápidas e fortes no padrão de chuva, com queda de precipitação no Brasil central e aumento no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Esses padrões de mudança têm que ser avaliados para garantir o abastecimento para a população, indústrias e atividades agropecuárias”, diz.

Coordenador do Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas), Amauri Pollachi afirma que a mudança climática altera os regimes hidrológicos e aumenta as incertezas de séries históricas. Diz também que, na região da bacia hidrográfica do Sistema Cantareira, o padrão climático observado até os anos 1970 e 1980 foi sensivelmente modificado no século 21, com longos períodos sem chuva e solo mais seco, por mais tempo.

“Dado o cenário de agravamento da crise climática e dos períodos de escassez, é imperioso adotar um controle estrito e centralizado dos usos das águas em São Paulo, sob supervisão e atuação direta do estado e a participação de todas as partes interessadas da sociedade civil”, diz. “A prioridade para abastecimento humano e dessedentação de animais deve ser garantida”, afirma, citando também a necessidade de recuperação e preservação de mananciais.

Pollachi também critica a redução de pressão como forma de economizar água, afirmando que o ideal seria incentivo financeiro na tarifa para estimular a redução do consumo voluntariamente.

O que dizem SP Águas e Sabesp

A diretora-presidente da SP Águas, Camila Viana, afirma que estão sendo tomadas medidas instituições e de governança, incluindo obras estruturais para dar mais segurança hídrica à população.

Para Camila, a integração dos reservatórios que abastecem a Grande São Paulo é um dos pontos principais. Uma série de transposições em andamento na região do Alto Tietê, por exemplo, tornariam o Sistema Integrado Metropolitano mais resiliente.

A diretora-presidente da SP Águas também diz que há uma forte governança compartilhada sobre o Cantareira, especificamente, com a participação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

A Sabesp também cita uma série de obras em andamento e diz que as projeções operacionais para 2026 indicam segurança no abastecimento da região metropolitana.

“A Companhia monitora continuamente os níveis dos reservatórios, as vazões e as condições climáticas e ajusta a operação dos sistemas de acordo com as regras técnicas e regulatórias. Esse acompanhamento é ainda mais importante diante da previsão de intensificação do El Niño, que pode trazer maior complexidade ao cenário climático”, afirma.