Calçadão de R$ 126 milhões em SP tem poças, rachaduras e concreto destruído
Reforma dos calçadões do Centro de SP, com troca de pedras portuguesas por concreto, tem poças, rachaduras e concreto destruído entre falhas
27/10/2026 02:15

São Paulo — Poças, grelhas destruídas, fissuras no concreto e retorno de água para o interior de prédios durante os temporais. Esses são só alguns dos problemas registrados em meio à substituição das pedras portuguesas por concreto nos calçadões do centro de São Paulo, uma obra que custa R$ 126 milhões aos cofres da prefeitura e que já se arrasta há mais de três anos.
A reportagem esteve em ruas que estão passando pela substituição das pedras pelo novo pavimento e encontrou uma série de falhas. Em alguns pontos onde a obra já foi aparentemente concluída, como em trechos da Rua Sete de Abril, grelhas de concreto estão destruídas, com o concreto se esfarelando sobre os bueiros, sinalizados com cones gigantes para evitar a queda dos pedestres.
Na mesma Sete de Abril, durante um temporal na última semana, a água jorrou por tampa de caixa de inspeção e retornou para um quadro de luz em um prédio na altura do número 264.
O problema se repetiu na Rua Álvares Penteado. “Teve uma chuva forte e a drenagem não foi bem-feita. A água voltou para a caixa do prédio que estamos reformando. É um absurdo. Causou transtorno não só para nós, mas para o restaurante aqui ao lado, que alagou todo”, disse o ajudante de pedreiro João Pedro Ferreira da Silva, 32 anos.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPNa Rua Anchieta, nas proximidades da Sé, mesmo seis horas após uma chuva, durante a madrugada, ainda havia grandes poças d’água sobre o concreto, indicando falha no sistema de drenagem.
“Arranca e faz de novo”
Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), João Virgílio Merighi é especialista em pavimentação e foi até as ruas que passam pela reforma na região central para analisar o trabalho “in loco”.
Segundo o especialista, um dos principais problemas é a falta de continuidade do piso tátil para deficientes visuais em trechos onde, aparentemente, o calçamento já foi refeito. “Aquilo é um crime em pleno século XXI”, afirmou.
Outro ponto que se destacou negativamente na análise de Merighi é o fato de o pavimento já apresentar microfissuras.
“Microfissura já é o início da deterioração da via. A rigor, tem que ser arrancada e refeita. Se eu sou o fiscal, mando arrancar e fazer de novo”, disse o professor do IFSP.
O especialista em pavimentação também afirmou que o piso é escorregadio e que isso pode trazer riscos para a população. “Se chover, vá preparado para escorregar. É liso e tem risco de acidente”, disse. “Se alguém se machucar, tem que procurar a Justiça”, afirma.
Sobre o empoçamento em locais que já passaram pela renovação do pavimento, Merighi apontou uma possível causa. “Não foi feito um estudo adequado da drenagem superficial.”
A reportagem questionou também o professor sobre a permeabilidade do novo pavimento em comparação com as pedras portuguesas. Vale lembra que a região que passa pela reforma fica no entorno do Túnel do Anhangabaú, que alagou na última grande chuva do início de outubro.
Merighi explicou que somente um ensaio de permeabilidade poderia apontar a capacidade do novo pavimento de absorver a água. A reportagem questionou a prefeitura, que respondeu não realizou esse ensaio, mas que usou materiais porosos.
Professor da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), José Leomar Fernandes Júnior afirma que as pedras portuguesas são mais permeáveis de forma geral, por terem as juntas com mais infiltração, mas faz ressalvas.
“A gente precisa analisar como um todo. Porque, às vezes, a água acaba infiltrando, mas depois você não tem uma tubulação adequada, em pouco tempo. Em termos de efeito climático, de inundação, não vai ter efeito”, diz.
Fernandes Júnior afirma que o pessoal “faz propaganda” do concreto permeável, mas existe ponderação. “Infiltra rápido, mas se não tiver uma tubulação, toda a drenagem projetada de forma adequada, a água entra rapidinho ali, mas não terá vazão e vai causar inundação”, afirma.
Sobre o empoçamento, o professor da USP afirma que a água deveria ser conduzida para uma canaleta, com caixas coletoras,
O que diz a Prefeitura de São Paulo
A Prefeitura de São Paulo diz que a requalificação dos calçadões da região central “vai garantir maior acessibilidade e segurança aos pedestres, conferindo mais autonomia, especialmente para pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e idosos”.
“Ao contrário das pedras portuguesas, que apresentavam desníveis, deslocamentos e perda de aderência, principalmente em dias de chuva, o atual pavimento em concreto é mais uniforme, resistente e segue as normas técnicas de aderência e rugosidade”, afirma a gestão municipal.

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Ver todasSegundo a prefeitura, a substituição das pedras portuguesas ocorreu por questões de segurança. “Importante destacar que os calçadões da cidade já chegaram a registrar 5.400 quedas em um único ano”, diz.
A prefeitura também afirma está sendo utilizado na requalificação material arenoso permeável, base e sub-base de brita para melhorar o escoamento das águas pluviais, reduzir o acúmulo de água e promover maior sustentabilidade.
“As obras também incluem a modernização das galerias de drenagem. Por isso, não é necessário ensaio específico de permeabilidade do material”, diz.
Em relação às microfissuras pontuais, a prefeitura diz que elas não indicam, necessariamente, comprometimento do pavimento e que ajustes serão realizados, se necessários.
Sobre a aderência e risco de escorregões, a administração municipal diz que o acabamento segue as normas municipais de rugosidade e as orientações do Manual de Execução de Pavimento Urbano de Concreto (PUC), o que garantiria segurança ao pedestre.
A sinalização tátil será instalada na etapa final das obras, que estão previstas para serem concluídas no primeiro semestre de 2027, segunda prefeitura. O investimento total na requalificação do Triângulo Histórico e Quadrilátero da República é de R$ 126,3 milhões.
A prefeitura também diz que as tampas mencionadas pela reportagem na Rua 7 de Abril não têm relação com a requalificação dos calçadões em andamento na região central. “Elas pertencem à rede antiga, ainda em operação até a conclusão da nova galeria de águas pluviais, e serão substituídas ao final da reforma. Em relação às grelhas de drenagem, há estudo para a modernização”, afirma.














