Atrasos em obra do BRT do ABC arranham trunfo eleitoral de Tarcísio
Governador aposta em entrega de obras de transporte em ano eleitoral. Obras atrasadas de BRT do ABC atrapalham planos em região populosa

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem apostado na imagem de finalizador de obras atrasadas no ano eleitoral. No BRT do ABC, porém, estruturas de concreto inacabadas, canteiros esvaziados e trechos ainda longe da conclusão ameaçam esse trunfo junto ao eleitorado de uma região com mais de 2,7 milhões de habitantes.
O corredor de ônibus — pensado para substituir obras de metrô ligando a capital à populosa região da Grande São Paulo — tem trechos com canteiros esvaziados e inacabados, conforme registros aéreos. As fotos e vídeos, feitos no fim de maio, mostram pouco movimento em trecho das obras na região do Sacomã, na zona sul (veja abaixo). Em pontos do ABC, como em um grande canteiro de obras plantado bem no centro de São Bernardo do Campo, a situação era parecida.
Este ano, o governador já inaugurou a Linha 17-Ouro do Metrô e pretende entregar, antes das eleições, o primeiro trecho da Linha 6-Laranja, dois trunfos para turbinar sua campanha à reeleição. No entanto, partes da obra do BRT do ABC ainda em estágios iniciais devem servir de munição para os adversários.
Por causa do atraso, Tarcísio já chegou a ameaçar cancelar o contrato com a concessionária Next Mobilidade, responsável pelas obras. Depois disso, afirmou a prefeitos que ao menos parte do BRT deve ser inaugurado até o fim do ano. Há uma semana, a empresa também divulgou vídeo com partes da obra finalizada, o equivalente a 10 km dos 17,8 km totais — as imagens devem funcionar como um antídoto às críticas pelo governo.
O BRT vai ligar São Bernardo do Campo, Santo André e São Caetano do Sul aos terminais Sacomã e Tamanduateí, permitindo a integração com a Linha 2-Verde do Metrô.
A proposta de modal com ônibus elétricos em corredor exclusivo substituiu o projeto de construção do metrô. A obra deveria ter sido entregue em 2023 e, segundo estimativa da Artesp (agência reguladora de transportes), o atraso já gerou um prejuízo de R$ 130 milhões.
A Next Mobilidade pertence à família Setti Braga, também principal acionista do fundo que controla a Autopass — operadora da bilhetagem na Grande São Paulo, por meio do cartão Top.
O que dizem o governo e a empresa responsável
A Artesp afirmou, em nota, que deve tomar medidas contra os atrasos da Next. “A Artesp acompanha e fiscaliza a execução das obras do BRT-ABC desde o início de 2025, quando passou a ser responsável pelo contrato. A Agência identificou atrasos na execução das obras e dos investimentos previstos e já iniciou as providências cabíveis, que incluem notificações, aplicação de penalidades e a abertura da pré-caducidade do contrato”, afirmou a agência, em comunicado.
A Next afirmou que as obras “seguem em andamento em diferentes frentes e que o projeto já conta com aproximadamente 10 quilômetros de corredor implantado, de um total de 17,3 km”. “Trata-se de uma intervenção de grande complexidade, executada em área densamente urbanizada e que demanda a compatibilização com múltiplos fatores técnicos e institucionais, como desapropriações, remanejamento de redes de concessionárias e implantação de estruturas viárias relevantes”, diz em nota.
A empresa ainda afirmou que “tem atuado para ampliar o ritmo das obras, com reforço de equipes, abertura de novas frentes de trabalho e investimentos contínuos, em alinhamento com as diretrizes do poder concedente e sob acompanhamento dos órgãos reguladores”.
Como é no papel
O trajeto de 17,3 km de extensão, entre o centro de São Bernardo do Campo e a capital, prevê passagem pelos municípios de Santo André e São Caetano do Sul e inclui paradas nos terminais Tamanduateí e Sacomã, ambos em São Paulo.

A expectativa é de que o percurso entre o Terminal São Bernardo e o Terminal Sacomã, na capital, seja feito em 40 minutos na modalidade expressa.
Além do serviço expresso, com menos paradas e velocidade média de 25 km/h, o passageiro poderá escolher outras duas opções: semi-expresso, com percurso previsto de 43 minutos, e parador, de 52 minutos.
As estações prometem ser envidraçadas, climatizadas com ar-condicionado e equipadas com internet wi-fi e painéis que mostrarão a previsão de chegada dos ônibus. A cobrança da tarifa será feita nas estações e o piso dos veículos será em nível da plataforma.
Novela
O BRT-ABC teve a construção iniciada em fevereiro de 2022, durante o governo de João Doria, que escolheu o corredor como solução para substituir o projeto da Linha 18-Bronze, cujo contrato de parceria público-privada havia sido assinado na gestão de Geraldo Alckmin, em 2014, e que tinha custo de cerca de R$ 4,2 bilhões para o estado.
Em 2020, o então governador anunciou a decisão de que a linha seria substituída por um projeto de BRT, alegando impossibilidade de execução do projeto. Dois anos depois, o contrato foi assinado. Desde então, a empresa ganhadora do contrato, Next Mobilidade, e o governo de São Paulo não avançam casas com esse trajeto de obstáculos.

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