"Vai envolver Milton Leite", diz suspeito de envolvimento com PCC em áudio
Milton Leite e o ex-presidente SPTrans foram alvo de mandado de prisão em operação contra infiltração do PCC no transporte público de SP

Áudios anexados a investigação da Polícia Civil de São Paulo mostram pessoas apontadas como ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) mencionando o ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União), e o ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, em conversas sobre o sistema de transporte municipal da capital.
Os dois foram alvo de mandado de prisão temporária nesta quinta-feira (17/8) no âmbito da Operação Vectura Corrupta, da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo (MPSP), contra um suposto esquema de infiltração do PCC no transporte público de São Paulo.
O nome de Milton Leite é citado em áudios trocados entre José Daniel Satilite, apontado como operador e laranja do PCC, e o advogado Cícero José dos Santos Filho, também investigado por elo com a facção.
Segundo a polícia, a conversa se deu pouco tempo depois da Operação Fim de Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo. No diálogo, Daniel diz a Cícero que havia comentado com outro advogado sobre a situação da UPBus, empresa que teve o contrato suspenso pela prefeitura de São Paulo após a investigação, e diz que seria necessário envolver Milton Leite para resolver a questão.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Eu comentei com o doutor Milton, referente à substituição da UPBus pela nossa empresa lá. Querendo ou não, vai envolver o Milton Leite, né? Falei: ‘ah, doutor, então beleza. Qualquer coisa a gente dá um toque no Milton Leite também, né?’”, diz Daniel.
A Polícia Civil afirma no documento que, embora Milton Leite não esteja dentre os contatos de Daniel, seu nome teria surgido justamente no contexto da investigação da Operação Fim da Linha, onde foi apontado por policiais militares como o verdadeiro dono da empresa Transwolff. Tanto a empresa como Milton Leite negam o vínculo.
A investigação ainda aponta que, no diálogo com o advogado, Daniel demonstra “extrema preocupação” em dar ciência a Milton Leite dos fatos envolvendo a UPBus. No mesmo diálogo, Daniel diz que, antes de efetivar uma eventual troca de empresas, teriam que “iniciar a conversa com o ‘Levi da São Paulo Transportes’”, em referência ao ex-presidente da SPTrans.
“Referente lá ao Levi, da São Paulo Transportes, o Lima tá indo lá. Na primeira reunião. Vamos ver o que que vai dar. Eu acho que vai envolver Milton Leite, o pessoal todo”, diz outro trecho captado pela polícia. “Vai ter que esperar iniciar a conversa lá com o Levi lá da SP Transporte”, diz outro trecho.
Milton Leite foi procurado para comentar sobre os áudios. O espaço segue aberto para manifestação.
A defesa de Levi dos Santos Oliveira afirmou que o conteúdo dos áudios “reforça a perplexidade da defesa diante da prisão ilegal decretada”.
“Que fique bem claro: Levi não participa de qualquer das conversas apresentadas. Seu nome é mencionado exclusivamente por terceiros, que fazem referência à possibilidade de procurá-lo, na condição de então presidente da SPTrans, para a realização de uma reunião relacionada ao sistema de transporte público municipal”, diz a nota do escritório José da Costa Advogados.
“Não há, nos diálogos indicados, qualquer fala atribuída a Levi, tampouco qualquer elemento que demonstre que tivesse conhecimento do contexto em que seu nome estava sendo mencionado. Mais do que isso, não há qualquer referência à prática de ato ilícito por Levi ou a qualquer conteúdo ilícito relacionado à suposta reunião. Fala-se apenas e tão somente da realização de uma reunião. Da mesma forma, para nossa perplexidade, não há sequer prova de que essa reunião tenha efetivamente se concretizado”, afirma ainda a nota.
A defesa do ex-presidente da SPTrans ainda diz que causa “especial perplexidade que elementos dessa natureza tenham sido utilizados para fundamentar medida tão excepcional quanto a privação de sua liberdade. Utilizar meras referências feitas por terceiros, em conversas das quais o Dr. Levi sequer participou e que não lhe atribuem qualquer conduta ilícita, para justificar sua prisão constitui uma verdadeira aberração jurídica”.
“Chama ainda mais atenção e indignação o fato de que o pedido de prisão havia sido indeferido pelo Juízo de primeiro grau, mas, surpreendentemente, acabou posteriormente deferido, em caráter liminar e por decisão monocrática, pelo Tribunal de Justiça, por meio de instrumento processual cuja adequação e legalidade também estão sendo objeto de questionamento pela defesa. A defesa considera absolutamente desproporcional a manutenção da prisão do Dr. Levi dos Santos Oliveira, primário, sem antecedentes e com décadas de serviços prestados à cidade de São Paulo”, argumenta a defesa.
“Todas as medidas jurídicas cabíveis estão sendo adotadas para restabelecer sua liberdade e assegurar que sua situação seja examinada à luz dos elementos efetivamente constantes dos autos e de atos concretamente atribuíveis a ele, e não de ilações ou referências feitas por terceiros, que sequer apontam qualquer conduta ilícita praticada pelo Dr. Levi”, completa a nota.
Operação Vectura Corrupta
- Deflagrada peplo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e pela Polícia Civil nesta quinta-feira (17/9), a Operação Vectura Corrupta mira um esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) com empresas de transporte público no estado.
- Ao todo, as autoridades cumprem 16 mandados de prisão e 18 mandados de busca e apreensão. Entre os alvos, está o ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União).
- A operação desta quinta-feira é um desdobramento de outra operação, deflagrada em agosto de 2024 e batizada de Decúrio. Na ocasião, as autoridades identificaram uma rede de comunicação entre integrantes da PCC e trocas de mensagens sobre a atuação do grupo.
- A investigação cita a “contaminação, pelo crime organizado, de empresas de transporte coletivo de passageiros na Capital e no interior”. No município de São Paulo, ao menos 12 das 22 empresas de transporte coletivo seriam, em tese, controladas pelo PCC.
- Essa infiltração, segundo as autoridades, ocorria por meio de uma estrutura organizada que combina o uso de empresas de fachada, direcionamento de licitações, apoio político e lavagem de capitais.
- Os criminosos também utilizariam os sócios formais das concessionárias e empresas de ônibus como “laranjas” para ocultar os verdadeiros proprietários das empresas, que seriam integrantes do PCC. Além disso, o grupo também teria promovido ajustes prévios para direcionar licitações e obter contratos emergenciais em diversos municípios. Há registros de acordos para que as empresas passassem a ser administradas por membros da facção logo após vencerem as licitações, mediante repasse de propinas a agentes públicos.
O que dizem os envolvidos
Segundo Milton Leite, as alegações apresentadas pela polícia sobre encontros com Oliveira, ex-SP Trans, tinham relação com o período em que ele, então presidente da Câmara de Vereadores, assumiu interinamente a cadeira de prefeito da capital. Ele nega qualquer envolvimento com o PCC.
“Eu me reunia porque era vice-prefeito e eu tive essa designação pelo Bruno Covas, em resolver a questão dos transportes”, declarou.
O ex-vereador reforçou que irá se apresentar nas próximas 24 horas: “Eu vou me apresentar, eu pedi 24 horas para poder me apresentar. Não estou me escondendo não”, afirmou.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirma que a intervenção determinada na empresa Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida para proteger o sistema municipal de transporte.
Na mesma ocasião, a administração municipal também determinou a intervenção na UPBus, “mesmo sem qualquer solicitação da Justiça”. A administração municipal diz que sempre agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.
Também em nota, a Câmara Municipal de São Paulo disse acompanhar os desdobramentos das investigações promovidas pelo MPSP, em conjunto com a Polícia Civil e o Poder Executivo, e aguarda as conclusões.
O Metrópoles aguarda um posicionamento do União Brasil. Além disso, busca a defesa dos demais alvos da operação. O espaço está aberto para manifestação.




