metropoles.com
Tácio Lorran

PF mira prefeito de João Pessoa por suspeita de elo com facção

Cícero Lucena (PP) então candidato a reeleição em João Pessoa, teria se aliado a facção criminosa durante a corrida eleitoral de 2024

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Reprodução
cicero lucena
1 de 1 cicero lucena - Foto: Reprodução

O prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena Filho (PP), tornou-se alvo de inquérito policial supervisionado pelo Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) por suposta participação em esquema de corrupção eleitoral e administrativa envolvendo a facção criminosa “Nova Okaida” (OKD), durante as eleições municipais de 2024.

As apurações tiveram início na Operação Território Livre, deflagrada pela Polícia Federal (PF), em setembro do ano passado, a partir de indícios de uma rede de influência mútua entre grupos criminosos e o processo eleitoral na capital paraibana.  Em setembro deste ano, o Ministério Público Eleitoral (MPE) já tinha denunciado a primeira-dama, Lauremilia Lucena, e outras nove pessoas, por suposta corrupção eleitoral e ligação com a facção criminosa.

PF mira prefeito de João Pessoa por suspeita de elo com facção - destaque galeria
4 imagens
Cícero Lucena, prefeito de João Pessoa
A primeira-dama de João Pessoa, Lauremília Lucena, ao lado do marido, Cícero Lucena
Cícero Lucena, prefeito de João Pessoa, e Lauremília Lucena
Cícero Lucena é prefeito de João Pessoa. Nas eleições de 2024 ele declarou à Justiça Eleitoral ter R$ 1.960.723,73 em patrimônio.
1 de 4

Cícero Lucena é prefeito de João Pessoa. Nas eleições de 2024 ele declarou à Justiça Eleitoral ter R$ 1.960.723,73 em patrimônio.

Reprodução/TV Arapuan
Cícero Lucena, prefeito de João Pessoa
2 de 4

Cícero Lucena, prefeito de João Pessoa

Reprodução/Redes sociais
A primeira-dama de João Pessoa, Lauremília Lucena, ao lado do marido, Cícero Lucena
3 de 4

A primeira-dama de João Pessoa, Lauremília Lucena, ao lado do marido, Cícero Lucena

Reprodução/redes sociais
Cícero Lucena, prefeito de João Pessoa, e Lauremília Lucena
4 de 4

Cícero Lucena, prefeito de João Pessoa, e Lauremília Lucena

Reprodução/Redes Sociais

Por meio de nota, a defesa de Cícero Lucena e da primeira-dama explicou que “não há qualquer denúncia, acusação formal ou decisão judicial que aponte vínculo do casal com organização criminosa, tampouco com os fatos mencionados na reportagem”. O comunicado diz ainda que o casal “têm colaborado com todas as autoridades competentes, mantendo postura de transparência e respeito às instituições”. (Leia a íntegra da nota ao final da reportagem)

No curso das diligências, a PF identificou coação eleitoral e pressões para garantir apoio a determinados candidatos. As investigações indicam que o crime organizado, especialmente vinculado ao tráfico de drogas, teria se infiltrado na estrutura eleitoral e administrativa do município, influenciando o resultado das eleições e alcançando órgãos públicos locais.

Segundo o inquérito, o prefeito, então candidato à reeleição pela chapa “João Pessoa no caminho certo”, teria se beneficiado diretamente do apoio da facção “Nova Okaida”. Cícero Lucena foi reeleito prefeito com 258.727 votos, o que representou 63,91% dos votos válidos. À Justiça eleitoral, ele declarou ter gastado R$ 5,1 milhões em despesas durante o pleito do ano passado.

Primeira-dama teve “papel central” na articulação com os criminosos, diz MP

Segundo os indícios e as manifestações do Ministério Público Eleitoral (MPE) e do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (GAECO), a primeira-dama de João Pessoa, Maria Lauremília Assis de Lucena, “desempenhou um papel central” na condução das negociações com a facção criminosa no contexto das eleições municipais de 2024. Ela foi identificada ainda como “principal articuladora política” de Cícero Lucena.

O esquema funcionava sob a lógica da troca: a facção “Nova Okaida” oferecia apoio eleitoral e controle territorial em benefício da chapa “João Pessoa no caminho certo”. Em contrapartida, havia a garantia de nomeações em cargos públicos e a concessão de outros benefícios por parte da administração municipal.

As negociações ilícitas teriam ocorrido sob a supervisão direta de Cícero Lucena, segundo comunicações interceptadas e documentos apreendidos. Embora o prefeito evitasse contato direto com membros da facção, ele delegava à esposa o papel de interlocutora com o grupo criminoso, mantendo constante acompanhamento das tratativas.

A primeira-dama de João Pessoa, Lauremília Lucena, ao lado do marido, Cícero Lucena
A primeira-dama de João Pessoa, Lauremília Lucena, ao lado do marido, Cícero Lucena

O conjunto de provas indica que Cícero Lucena seria o “mandante e verdadeiro autor intelectual” das ações da organização criminosa. Ele teria sido o principal beneficiário político do esquema de controle eleitoral, recebendo apoio compulsório de eleitores nas áreas dominadas pela facção.

Documentos e comunicações apreendidos na residência oficial do prefeito — que também é o endereço de Maria Lauremília — reforçam a suspeita de que Lucena controlava efetivamente as nomeações derivadas dos acordos com a facção.

A investigação reuniu elementos probatórios robustos que reforçam a hipótese de uma estrutura criminosa sofisticada com atuação interestadual. Diante da possível participação do prefeito, o MPE e o GAECO solicitaram o envio do caso ao TRE-PB, em razão do foro por prerrogativa de função.

Crimes sob investigação

A soma dessas práticas — coação de eleitores, troca de cargos públicos por apoio eleitoral e interferência em penas de condenados — caracteriza um esquema que pode se enquadrar nas seguintes tipificações penais:

  • Organização criminosa (Lei nº 12.850/13);
  • Crimes eleitorais: corrupção eleitoral (art. 299) e coação eleitoral (art. 301 do Código Eleitoral);
  • Corrupção ativa e passiva (arts. 317 e 333 do Código Penal);
  • Peculato (art. 312 do Código Penal);
  • Lavagem de dinheiro (art. 1º da Lei nº 9.613/98).

Próximos passos da investigação

Apesar da farta quantidade de indícios, a Procuradoria Regional Eleitoral (PRE) avalia que ainda não há provas suficientes para oferecer denúncia formal contra o prefeito. Segundo o órgão, embora os elementos colhidos apontem envolvimento de Cícero Lucena — por ter sido o principal beneficiário e por ter autorizado a atuação da esposa —, a acusação seria prematura neste estágio processual.

A PRE reconhece que o material probatório vai além da mera suspeita, mas ainda carece da consistência necessária para sustentar uma denúncia. Assim, o TRE/PB determinou a instauração de um inquérito policial autônomo para aprofundar a apuração sobre a conduta do prefeito.

No despacho do juiz-relator Bruno Teixeira de Paiva, no TRE-PB, ele atende ao pedido da PRE para que a PF investigue o atual prefeito por essas possíveis ligações que visavam interferir nas eleições do ano passado.

No ofício, assinado em 20 de agosto, o relator reconhece que não há elementos suficientes para uma denúncia formal contra Cícero Lucena, ainda assim, defende a necessidade da investigação diante do conjunto de provas apresentadas.

“Os diálogos apresentados, conquanto sugestivos, permanecem na esfera do indiciário, carecendo da consistência probatória que a denúncia exige para legitimar-se. No entanto, esses mesmos elementos não obstam (pelo contrário, autorizam) a necessidade de continuidade das investigações”, observa o relator.

“Acolho a manifestação ministerial para: autorizar à Polícia Federal na Paraíba a instaurar inquérito, sob a supervisão deste Tribunal Regional Eleitoral, para investigar a concorrência e/ou participação do Prefeito da Capital/PB, Cícero Lucena Filho, nos crimes apurados neste Inquérito, sem prejuízo à apuração de outros que venham a ser descobertos no curso da investigação”.

O relator do caso ordenou o desmembramento do inquérito original, remetendo as investigações sobre os demais suspeitos — sem foro privilegiado — de volta à Justiça Eleitoral de 1º grau.

O que diz a defesa de Cícero Lucena e da primeira-dama Lauremilia Lucena

“A defesa do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, e da primeira-dama, Maria Lauremília Lucena, vem esclarecer que não há qualquer denúncia, acusação formal ou decisão judicial que aponte vínculo do casal com organização criminosa, tampouco com os fatos mencionados na reportagem.

O inquérito referido encontra-se sob segredo de Justiça e foi instaurado por determinação do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) apenas para fins de apuração preliminar, sem juízo de valor sobre responsabilidade penal ou eleitoral. Até o momento, não há imputação de crime nem indício concreto que envolva o prefeito ou a primeira-dama.

Ressalta-se que, em decisão de 11 de setembro de 2025, o próprio TRE-PB reconheceu que Cícero Lucena não figura como investigado no processo nº 0600222-50.2024.6.15.0070, vinculado à Operação Livre Arbítrio, determinando a devolução dos autos à 64ª Zona Eleitoral por ausência de elementos que o relacionassem aos fatos sob apuração.

Importante também esclarecer que a Operação Território Livre, citada na matéria, refere-se a supostos acontecimentos do segundo turno das eleições de 2022, período em que Cícero Lucena não era candidato nem tinha parentes em disputa eleitoral, limitando-se ao apoio político público às candidaturas estaduais então em curso. Nenhuma medida judicial, acusatória ou cautelar foi dirigida contra ele.

A defesa reafirma que o prefeito e a primeira-dama têm colaborado com todas as autoridades competentes, mantendo postura de transparência e respeito às instituições, e repudia a divulgação indevida de informações sob sigilo judicial ou de interpretações que possam distorcer a realidade processual e comprometer a honra e a reputação de pessoas públicas.

Por fim, reitera-se plena confiança na Justiça e na pronta elucidação dos fatos, com o reconhecimento da inexistência de qualquer participação de Cícero Lucena e Maria Lauremília Lucena em práticas ilícitas”.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?