DF: abrigos lotam no início do ano com redução de ajuda e emprego
Só em um dia da primeira semana de janeiro, 108 pessoas pediram um lar temporário. Pedidos devem ser feitos à central de vagas da Sedes
atualizado
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As festas de fim de ano passaram e, com elas, as ofertas de empregos temporários, o fluxo de carros circulando e o espírito de solidariedade que a época desperta. Se por um lado nota-se a diminuição gradativa do número de acampamentos formados por pessoas em busca de ajuda, há uma procura maior por vagas em casas de acolhimento do DF.
A quantidade de pessoas em situação de rua, de fato, cresce com a chegada do fim de cada ano: cerca de 20%, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). “São famílias que residem no Entorno ou em outras unidades da Federação que ficam perto e vêm em busca de doação. Apesar disso, o Serviço de Abordagem Social de Rua afirma que esse tipo de migração não gera “aumento na demanda por acolhimento” e que “gradativamente as famílias começam a retornar para suas cidades”.
Ao contrário do que se imagina, é no início do novo ano que a busca por um lar temporário em abrigos públicos se torna frequente. Só em um dia da primeira semana de janeiro, 108 pessoas pediram ajuda. As solicitações são feitas diariamente à central de vagas da pasta e registradas em um sistema interno. Aberta a oportunidade, a permanência máxima é de três meses, mas exceções podem ser feitas a depender da análise de equipes técnicas responsáveis.
Jerônimo Imperiano, 35 anos, conseguiu um dos 46 leitos na unidade da QNM 10 de Ceilândia do Instituto Inclusão, entidade parceira da Sedes. Ele veio de Goiânia em busca de emprego. “Teoricamente, a capital do país tem melhores oportunidades, além de ser perto. Aí eu poderia trabalhar na semana e ver minha família na folga”, planeja.
Currículo é o que não falta. Com ensino médio completo, já fabricou carvão a foi gerente de supermercado. “Pode ser até uma bicicleta para fazer entrega”. Enquanto procura uma fonte de renda, recebe assistência de psicólogo e técnicos da casa com garantia de cama e comida por três meses. Em contrapartida, contribui com as tarefas de limpeza do local.
Se o foco veio para Brasília, o coração ficou em Goiânia. Ao falar dos filhos, de 1 e 3 anos, os olhos se enchem de água. “Vou reunir minha família de volta, mas só quando eu for capaz de ser exemplo para meus filhos. Quero trazê-los para cá, onde terão melhores escolas e espaço para crescerem”, deseja.
Fim de festa
Para além do grupo de famílias completas que se instalam provisoriamente no DF durante Natal e Ano-Novo, dezenas de homens, assim como Jerônimo, decidiram vir à capital tentar fazer dinheiro. De acordo com um dos fundadores e coordenador do Instituto Inclusão, Natanael Marcena, muitos acabam trabalhando como ambulantes e, quando não conseguem se estabelecer, ficam no DF somente até o Carnaval.
“Nota-se que em janeiro as casas ficam mais movimentadas em diversos horários. Isso por que os empregos temporários acabaram, as ajudas diminuem e é preciso se restabelecer”, explica Natanael.
É o caso de Kiones da Silva, 29 anos, que passou parte da vida tirando o sustento como flanelinha e que tem passado mais tempo na casa de acolhimento. “Vigiar e lavar carro é o que eu sei fazer, me sustento assim. Só que quando a pessoa não quer ajudar, finge que a gente não está ali e nem um obrigado dá”, explica Kiones.
Há um mês, ele trabalhava em ponto do estacionamento do Taguaparque, aproveitando a generosidade do espírito natalino. Passado o período e com o esvaziamento da cidade durante as férias, a renda tem sido muito baixa e investir em um prato de comida não vale a pena. “Melhor voltar para a casa de acolhimento”, onde há refeição de graça.
O dinheiro que juntou em dezembro e iria usar para pagar aluguel, acabou gastando. “Natal é época de reconciliação, só que a conversa com meu pai não foi boa não. Acabei tendo uma recaída nas drogas e a reserva foi para a rua. Mas quero começar 2020 com o pé direito. Só preciso de oportunidades”, afirma o vigia.
Serviço de acolhimento
Um levantamento realizado pela Gerência de Serviços Especializados em Abordagem Social, em 2019, apontou que há, aproximadamente, 3 mil pessoas em situação de rua no DF. Os principais pontos são: Plano Piloto, Ceilândia e Taguatinga. Os serviços visam a proteção dessas e de outras pessoas em situação de vulnerabilidade, abandono, ameaça ou violação de direito humanos.
São nove equipamentos que oferecem o acolhimento para adultos e famílias no DF. Três deles são de execução governamental : Unaf, voltado para adultos, idosos e famílias; Unam, destinado a mulheres; e Unai, para idosos. As outras seis casas são geridas pelo Instituto Inclusão e, juntas, têm capacidade para atender 215 homens e mulheres adultas com ou sem crianças. Não há previsão para abertura de novas unidades.