Alexandra Gurgel fala sobre aceitação do corpo, projetos e vida em Brasília
À frente do canal Alexandrismos, a jornalista e escritora nota uma vontade da sociedade em querer discutir corpo e se libertar dos padrões
atualizado
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“As pessoas pararam de se esconder.” As palavras são de Alexandra Gurgel, fundadora do Movimento Corpo Livre. Há cinco anos, a jornalista e escritora produz conteúdos criativos e reflexivos publicados em plataformas e redes sociais. Neles, Xanda (apelido dado pelos mais íntimos) aborda temas que, até pouco tempo, eram colocados entre aspas, como o termo gordofobia. Sem rodeios, ela discute assuntos como aceitação, autocuidado, diversidade corporal e pressão estética. Assim, criou uma rede que soma mais de 1 milhão de pessoas – e contando.
A nova cidadã brasiliense conversou com a coluna Claudia Meireles. No bate-papo descontraído, Alexandra contou a respeito do projeto que estreou na segunda-feira (11/1), o Verão da Xanda. Na websérie para o Instagram e YouTube, ela traz o melhor da temporada de sol em entrevistas com personalidades. Para dar start no quadro, a jornalista convidou a cantora Aline Wirley. De acordo com a ativista, artistas terem se identificado com as pautas relacionadas a corpo livre ajudou os assuntos a prosperarem na mídia e chegarem a mais homens e mulheres.
Comparando o passado e o presente, a mente à frente do canal Alexandrismos (com 489 mil inscritos) nota uma vontade da sociedade em querer discutir o corpo padrão e mostrar quem realmente é, independentemente de sexualidade, gênero, deficiência e outras questões importantes. Na avaliação da ativista, a mudança cultural decorre de cinco pontos. Além de estar na mídia e ter seu trabalho reconhecido, a jornalista elenca a transformação da pauta, deixando de ser polêmica e ganhando naturalidade.
Ver corpos diversos no Instagram, na mídia e no dia a dia é o quarto ponto, segundo a escritora. Todos os anteriores resultam no quinto tópico: marcas passaram a adotar o discurso. “É algo lindo. Cinco anos atrás, ninguém imaginaria que isso aconteceria”, analisa Xanda. Com o olhar empírico, ela acredita que a pandemia “fez a pauta circular” devido às pessoas ficarem em quarentena. Na ocasião, por questionarem quem são de verdade e o que fazem com o próprio corpo.
Ao expor o ponto de vista, a ativista esclareceu o raciocínio: “Não falei que a pandemia foi positiva. Pela primeira vez, todo mundo, não só no Brasil, ficou por um período dentro de casa. Praticaram meme gordofóbico. Fizeram antes e depois. Por que estou engordando? Como demais? Quem sou eu? Esses assuntos permearam o ano de 2020. O resultado foi as pessoas conhecerem a pauta e, consequentemente, as marcas entraram”, explica Alexandra Gurgel.
Autoaceitação
Entretanto, gostar de si não é algo que ocorre do dia para a noite. “Se engana quem acha que os ativistas, que ajudam outras pessoas a se descobrirem, não estão também nesse processo de desconstrução, não de destruição”, defende Xanda. Para conquistar a “liberdade de ser quem quer ser”, enfrentará obstáculos no caminho. O primeiro? A sociedade. “Estamos em um núcleo social responsável por nos moldar. Nós nem percebemos, mas reproduzimos sem perguntar o motivo. Não se questiona, vai vivendo a mesma mentalidade”, alerta.
“O segundo obstáculo é compreender que a culpa não é sua”, endossa Alexandra. Ao longo de 26 anos, ela buscou ter o corpo perfeito, ou seja, dentro dos padrões estéticos. Com 31 anos e solta das amarras, a jornalista entende que a beleza foi criada para controlar o público feminino durante toda a vida: “Somos ensinadas a odiar quem a gente é e a nossa imagem. Está tudo errado sobre um zíper abrir no nosso cérebro e sair a melhor versão de nós mesmas. Entender isso é bem difícil. Toda essa consciência tem de mudar”.
A palavra autoaceitação ganhou destaque no cenário social devido à educação promovida por ativistas e à circulação das pautas sobre corpo livre. Contudo, a busca pela estrutura física perfeita continua “muito forte”. Na avaliação de Xanda, o entendimento perdura em razão de as pessoas não saberem de fato a concepção de autoaceitação: “Acreditam que é amar-se incondicionalmente e se achar linda sempre. Não! Terá dias em que você se sentirá bonita e horrível no outro. E tudo bem”.
Há cinco anos no processo, a jornalista define a autoaceitação como um sentimento: “É se achar digna de amor e de ser amada. Merecedora, não mais um lixo. Vai além da aparência”. Conforme explica Xanda, as pessoas tendem a desistir ao longo do “percurso”: “Difícil buscar algo que não está acostumada [a viver]. Mais fácil voltar ao que fazia antes”. Praticar o ódio contra o corpo e submeter-se a dietas restritivas são ações consideradas mais simples do que se aceitar.
Acolhimento
Na entrevista, Alexandra lembrou do body positive. No movimento sobre positividade corporal, “a pessoa se ama e está perfeito”. Diferente do corpo livre, no qual se abraça a liberdade e a saúde como um todo, desde o físico, mental, emocional e espiritual. “Tem até a ver com ficar mal e acolher o sentimento”, ressalta a escritora. Aos seus seguidores, ela aconselha viver “um dia de cada vez”. Passar por dias ruins e se odiar não significa falta de amor, conforme esclarece a escritora:
“Terá momentos em que vou me olhar no espelho e me acharei horrível? Claro que sim. Sou uma mulher com altos e baixos. Temos hormônios circulando pelo nosso corpo. A lua influencia. Mas não quer dizer que não me amo incondicionalmente. Nós não aprendemos a viver o drama do dia a dia de amar o próprio corpo. Aceitação não é flertar, casar com ela e, depois, ficar sem preocupação. Meu amor, quando a gente casa, surgem várias questões”, entrega Alexandra Gurgel, criadora do canal Alexandrismos, no YouTube.
Símbolo de amor próprio, Xanda aconselha acolher os próprios julgamentos. “Por que eu estou passando por isso? O que está acontecendo? Por que me olho desse jeito? Isso é um trabalho autoterapêutico e de autoajuda”, garante. Para contribuir com o processo, ela recomenda recorrer ao auxílio de um profissional. De acordo com a escritora, terapia é um investimento para a saúde mental e, também, emocional. Ambas deveriam ser colocadas em primeiro lugar para poder viver sem se importar com a opinião e validação alheia.
Mulheres magras se acham gordas e, depois, quando conhecem a pauta da aceitação, não se sentem no direito de também terem o corpo livre por acreditarem que vão falar ser frescura. A anorexia é a doença mental que mais mata no mundo. Realmente, precisamos tratar a nossa mente. A nossa sociedade induz a práticas de transtornos alimentares, anorexia e bulimia. Uma multidão que está transtornada e com disforia de imagem, necessita de tratamento
Alexandra Gurgel
Alexandra propõe colocar em prática a seguinte dinâmica: “Todo tempo em que se julga ou passa com esse julgamento, tente fazer o contrário. Busque ver o que há de bom. É um exercício. A ajuda profissional te guiará, pois, às vezes, passamos por situações íntimas, individuais e de traumas complexos”. Somente após se aceitar, a jornalista descobriu sua sexualidade. Lésbica, ela é casada com Carol Caixeta. No ponto de vista de Xanda, cada pessoa tem um processo e, por isso, não existe certo e errado para aprender a gostar de si: “O importante é sentir-se bem”.
Projetos
O percurso de aceitação de Alexandra a inspirou a escrever o livro Pare de se odiar, de 2018. Campeão de downloads da editora BestSeller, o título ganhará continuidade. A ativista está prestes a terminar o Comece a se amar. E fechará a trilogia com a publicação Corpo livre. Na segunda obra, ela seguirá a mesma linha do primeiro e vai trazer uma atualização de temas, como lipo lad, intervenções estéticas, filtros do Instagram e a liderança do Brasil no ranking de cirurgias plásticas.
O sonho de Xanda era ser escritora e, com a sua dedicação, virou realidade. “Tenho uma carreira literária acontecendo.” Neste ano, a jornalista irá embarcar no ofício de traduzir o livro infantil Her Body Can. “A autora é uma mãe. Ela escreveu com uma amiga. Uma história incrível. Uma menina gorda descobre que pode ser feliz com o corpo que tem”, conta. Ao trabalhar com o título literário, a ativista pretende desenvolver conteúdos sobre corpo livre voltados às crianças. “Não é romantizar a obesidade nem fazer apologia a engordar ou emagrecer. Literalmente, liberdade”, elucida.
“Nós estamos com cinco anos de projetos. Ações grandes estão por vir e são muito legais”, destaca a fundadora do canal Alexandrismos. Uma das iniciativas que acabou de sair do forno foi o Verão da Xanda, websérie com a participação de famosos. No início do verão, Alexandra completou 1 milhão de seguidores e cinco anos como produtora de conteúdo. Sem poder comemorar as conquistas “com aglomeração” devido à pandemia, a jornalista resolveu movimentar o Instagram e YouTube com o quadro e outras colaborações.
Há seis meses, Xanda começou um novo capítulo de sua vida. Ela decidiu morar em Brasília com a mulher, Carol Caixeta, que tem família na cidade. Carioca, a escritora viveu três anos em São Paulo. Em busca de qualidade de vida, adotou a capital federal como lar doce lar. “Eu amo esse lugar, o céu de Brasília e sou surfista do Lago Paranoá, brincadeira”, afirmou. Em determinados momentos, Alexandra passeia pelo Quadradinho sem rumo: “Me traz paz e tranquilidade”. Ela ficou encantada com o pôr do sol próximo à Torre de TV Digital.
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