Andreza Matais

Presidente do STJ usou dezenas de carros oficiais para turismo no RJ em evento sobre ética judicial

Congresso Internacional Estado de Direito e Ética Judicial, do STJ, incluiu turismo de convidados estrangeiros em pontos turísticos do Rio

atualizado

metropoles.com

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Gustavo Lima/STJ
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1 de 1 imagem colorida do ministro Herman Benjamin, STJ - Metrópoles - Foto: Gustavo Lima/STJ

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) mobilizou veículos oficiais da própria Corte, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) e do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) para passeios turísticos com convidados estrangeiros de evento sobre ética no Judiciário.

Intitulado “Congresso Internacional Estado de Direito e Ética Judicial”, o evento é uma iniciativa do atual presidente do STJ, ministro Herman Benjamin.

Parte do mundo jurídico vê a atividade como contraponto ao XIV Fórum de Lisboa, mais conhecido como “Gilmarpalooza” — o apelido faz referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. Ao contrário do evento do STJ, o Fórum de Lisboa não é patrocinado com recursos públicos.

Embora a maior parte da programação do evento do STJ ocorra em Brasília, o encontro incluiu painel no Rio de Janeiro para discutir o processo de atualização dos Princípios de Bangalore de Conduta Judicial. Esses princípios são um conjunto de diretrizes para a atuação de magistrados propagadas pela Organização das Nações Unidas (ONU). A coluna apurou que foi um pretexto para o roteiro turístico no Rio.

No sábado (30/5), os convidados estrangeiros do STJ fizeram tour pelo Rio de Janeiro em carros oficiais dos tribunais. Visitaram pontos turísticos, como o Maracanã e o Cristo Redentor. No domingo (31), o Brasil jogou contra o Panamá no estádio. A maior parte da programação do encontro, no entanto, ocorre em Brasília (DF). Segundo a coluna apurou, foram usados cerca de 50 veículos oficiais.

Em nota, o STJ disse que os custos do evento ainda serão calculados e “disponibilizados oportunamente no prazo de duas semanas”. Ou seja, o STJ fez evento sobre ética no Judiciário e não sabe dizer quanto custou.

Sobre o passeio da delegação estrangeira no Rio de Janeiro, a Corte disse apenas que os convidados “visitaram pontos turísticos do Rio de Janeiro, sem despesas de almoço e jantar para o STJ”. A Corte não respondeu sobre ter usado carros oficiais.

Ao todo, o evento reuniu representantes de 23 tribunais estrangeiros — inclusive cortes constitucionais — para discussões sobre ética no Judiciário, inteligência artificial, redes sociais e defesa do Estado de Direito.

A atividade no Rio de Janeiro não consta na programação oficial do Congresso, divulgada pelo STJ em seu site.

Em nota, o STJ disse que pagou apenas as passagens dos convidados de três países: África do Sul, Argentina e Peru. Esses convidados viajaram em classe econômica, segundo o tribunal.

Durante sua participação no evento nesta segunda-feira (1º/6), a ministra Cármen Lúcia, do STF, cobrou a observância de princípios éticos por parte dos juízes brasileiros.

“Eu acredito no Poder Judiciário brasileiro, nos juízes e juízas brasileiras, e sei que (existem) eventuais falhas, e elas há. Somos um grupo de pessoas humanas, com nossas falhas, nossos limites”, disse a ministra.

Parte da programação do evento aconteceu sem acesso da imprensa e sem transmissão ao vivo. À coluna, o STJ disse que o objetivo era viabilizar a discussão livre entre os participantes.

“Logo após o Congresso, será publicado um relatório público contendo os principais debates e as conclusões do evento, sem identificação das contribuições individuais”, disse a Corte, em nota.

STJ enfrenta crise ética

Nos últimos anos, o próprio STJ passou a enfrentar crise de reputação e imagem pública em razão das investigações sobre venda de sentenças.

A principal apuração sobre o tema é a Operação Sisamnes, da Polícia Federal. A investigação mira o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, que, segundo a PF, teria acesso antecipado a minutas de votos e decisões do tribunal.

Nos últimos meses, as apurações alcançaram gabinetes de ministros e servidores do tribunal. Na semana passada, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, denunciou o ex-assessor do STJ Márcio Toledo Pinto por crimes como corrupção, exploração de prestígio, violação de sigilo funcional e organização criminosa, além do próprio Andreson. No entanto, nenhum ministro do STJ foi incluído na denúncia.

Outra frente de desgaste envolve o ministro Marco Buzzi, investigado por importunação sexual e assédio. Segundo relatos revelados pelo Metrópoles, Buzzi teria tentado agarrar uma jovem de 18 anos, filha de amigos, durante férias em Balneário Camboriú (SC).

O STJ abriu sindicância, afastou cautelarmente o ministro de suas funções e prorrogou a investigação interna.

A crise se agravou com uma segunda denúncia. Uma ex-funcionária terceirizada do gabinete de Buzzi relatou suposto assédio sexual ocorrido no ambiente de trabalho, reforçando a percepção de falha institucional na prevenção e resposta a condutas impróprias. Buzzi nega as acusações.

STJ: evento no Rio não foi pretexto para passeios

Em nota enviada à coluna após a publicação, o STJ disse que a parte da programação no Rio de Janeiro foi um evento com “evento com densa programação oficial e pública”, e não um pretexto para passeios na cidade. A Corte disse ainda que o uso de carros oficiais foi limitado a duas vans.

Leia abaixo a nota do STJ, na íntegra:

Não procedem, em absoluto, as informações prestadas à coluna que deram origem ao texto publicado na manhã desta terça-feira (2). O Superior Tribunal de Justiça (STJ) solicita a retificação da nota, considerando os seguintes pontos:

1. O Encontro de Presidentes e Ministros de Cortes Nacionais e Internacionais sobre os Princípios de Bangalore de Conduta Judicial, realizado no Rio de Janeiro, não foi pretexto para passeio na cidade. Tratou-se, na verdade, de evento com densa programação oficial e pública, analisando um dos temas mais importantes para o Judiciário contemporâneo: o processo de atualização dos Princípios de Bangalore de Conduta Judicial, aprovados pela ONU há 20 anos.

2. O programa e informações detalhadas sobre o encontro foram disponibilizadas no portal do STJ:

O relatório preliminar do encontro no Rio de Janeiro também foi disponibilizado, logo após o evento, no site do STJ (ainda em processo de tradução para outros idiomas).

3. Ao contrário do publicado (“uso de cerca de 50 carros”), utilizaram-se apenas duas vans em um evento que contou com a participação de cinco presidentes e seis ministros de cortes internacionais e supremas. O transporte foi feito de forma coletiva, e não individual. 

4. A opção por vans e transporte coletivo, que destoa da prática protocolar, reforça a preocupação do Tribunal com custos. 

5. Finalmente, não procede a informação sobre uma suposta visita ao Maracanã durante o jogo da Seleção Brasileira, ocorrido quando a delegação já estava em Brasília, a fim de participar do Congresso Internacional Estado de Direito e Ética Judicial, realizado na sede do STJ nos dias 1 e 2 de junho de 2026″.

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